David Redwine: Cistos ovarianos e cirurgias de emergência!

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Já falamos muito no A Endometriose e Eu sobre os cistos ovarianos, especialmente sobre os endometriomas, o tal cisto de chocolate da endometriose. O doutor Alysson Zanatta explica muito bem no “O Verdadeiro significado do endometrioma de ovário”, que quem tem endometrioma tem endometriose profunda.

Infelizmente a falta de informação, até mesmo dos médicos que tratam endometriose, faz com que a mulher tem o cisto tratado, mas não a doença na pelve, que é deixada pra trás. Diariamente eu recebo e-mails e mensagens de leitoras falando que tinha apenas endometrioma.

Ou seja, uma endomulher não pode ter apenas endometrioma. Ou ela tem endometrioma e endometriose profunda, ou o cisto não é o de endometriose. E tanto o doutor David Redwine quanto o doutor Alysson Zanatta já falaram em seus textos que não é aconselhável uma cirurgia de emergência e ou urgência para endometriose.

Salvo por dois motivos que o doutor David Redwine coloca tão claramente neste texto. Justamente nas cirurgias de emergências que o cirurgião retira apenas o cisto e deixa toda a doença profunda para trás. Por isso esse texto é muito importante e deve ser compartilhado também com seu médico, seja ele especialista ou não. 

Informação é tudo, e a verdadeira informação é ainda mais valiosa. Principalmente quando se trata de endometriose, um tema ainda tão cercada por mitos. Mas é a nossa união e o compartilhamento dos nossos textos que irão mudar esse trágico quadro. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

 

Por doutor David Redwine
Tradução: Caroline Cardoso
Edição: doutor Alysson Zanatta

Eventualmente uma paciente interessada em vir até mim para uma cirurgia poderia nos contatar e nos contar que está com um cisto ovariano e que isso requer uma cirurgia de emergência.

Um cisto ovariano sempre é uma emergência? Raramente.

Existem apenas duas situações que exigem cirurgia de emergência para um cisto de ovário:

1 – Cisto hemorrágico com perda significativa de sangue que resulta em anemia.

2 – Dor severa e implacável que não pode ser controlada com remédio.

Vamos falar um pouco sobre essas duas situações.

A causa mais comum de hemorragia significativa de um cisto no ovário é um cisto hemorrágico do corpo lúteo. O corpo lúteo é uma estrutura cística normal que se forma a cada mês após a ovulação. Há um crescimento fisiológico de capilares no corpo lúteo após vários dias, o que, às vezes, é um pouco excessivo e raramente pode resultar em sangramento severo.

Se uma mulher está tomando pílula anticoncepcional, a ovulação não deve ocorrer, portanto um corpo lúteo hemorrágico é improvável nessa situação. Eu vi apenas alguns casos de hemorragia como este de um corpo lúteo em meus mais de 30 anos de prática.

Então, isso é raro. A gravidade dos sintomas e o choque que a acompanha devido à baixa pressão arterial tornam a gravidade da situação óbvia para todos. Isso pode ser uma verdadeira emergência.

Uma dor intensa e implacável, às vezes acompanhada de náuseas e vômitos, de um lado ou de outro, pode ser sintoma de um cisto no ovário ou pode ser devido à outra coisa como uma apendicite ou uma gravidez tubária. Os cistos ovarianos raramente causam dor severa, embora ela possa ocorrer se um cisto no ovário se torcer.

O vazamento do líquido de um cisto às vezes pode causar dor, que melhora ao longo dos dias, embora não haja muita dor se um cisto for preenchido por um líquido claro e fluido.

O exame de ultrassom às vezes pode mostrar se existe um cisto e que tipo de líquido que o preenche. Se há realmente um cisto e ele se rompe, o ultrassom pode mostrar se o fluido que vazou tem sangue, coágulos, se é gorduroso (como pode ocorrer com a ruptura de um cisto dermoide) ou simplesmente transparente como a água.

Às vezes, o ginecologista pode inserir uma agulha na parede posterior da vagina e coletar algum fluido que vazou para ver de que é constituído. A dor severa ou seu agravamento não controlado por medicamentos simples é uma razão para se considerar a cirurgia.

Vamos falar sobre cistos ovarianos que não precisam de cirurgia de emergência. Isso incluiria a maioria dos cistos, uma vez que eles podem ir e vir apenas com base na função ovariana normal.

As pílulas anticoncepcionais não fazem com que os cistos sumam, embora muitas vezes sejam prescritas para esse propósito. Não obstante as pílulas anticoncepcionais devessem evitar a ovulação, as pílulas de baixa dose no mercado nem sempre mantêm os ovários totalmente reprimidos, então, às vezes, eles podem formar cistos mesmo com o uso de anticoncepcional.

Nem sempre um cisto pode ser apalpado no exame e, às vezes, um ultrassom será prescrito para investigar melhor a dor pélvica. Um cisto muito pequeno, de 1 cm de diâmetro, pode ser visto em ultrassom. Como os cistos de ovulação podem atingir de 2,5 cm a 3 cm de diâmetro, a presença de pequenos cistos em um ultrassom é comum e pode não estar relacionada à dor.

Um cisto maior que 6 cm é o nível arbitrário no qual a cirurgia é frequentemente recomendada, uma vez que os cistos de tal tamanho podem não desaparecer por conta própria, embora, mesmo grandes, cistos nem sempre causam dor ou se rompem.

Frequentemente o ultrassom pode mostrar que tipo de cisto a paciente tem e isso pode dar uma ideia se ele vai sumir ou não. Os cistos de endometriose podem ser mostrados por ultrassom, mas, mesmo a presença de um cisto de tamanho considerável, não é uma emergência se não estiver associada a dor ou sangramento intenso como discutido acima.

O cisto não cresce tanto do dia para a noite e a maioria dos cistos de endometrioma não se rompe de forma devastadora. Eventualmente vai escorrer superficialmente e a parede do cisto pode se fechar de novo.

Quando os cistos vazam, podem causar dor por alguns dias, depois melhora. Esse vazamento pode ocorrer a cada mês em algumas pacientes e apenas uma vez em outras. Não há evidências de que um cisto de endometrioma vazando faça com que a endometriose se espalhe.

Então, se você tem um cisto que parece ser um endometrioma, fazer uma cirurgia não é uma emergência. Na verdade, às vezes isso até pode ser uma má ideia, já que muitas outras áreas da doença na pelve não são tratadas porque a presença do cisto pode resultar em visão restrita por parte do cirurgião (olhando apenas para a questão imediata).

Na maioria dos casos, as mulheres que pensavam ter grandes cistos de endometrioma podem evitar a cirurgia de emergência e esperar para agendar a cirurgia de endometriose com um especialista em excisão, a menos que esteja com dores ou hemorragias graves.

Mesmo que o ultrassom sugira um cisto cancerígeno, isso não é uma emergência, embora obviamente deva ser tratado no devido tempo.

Nota do editor: os cistos ovarianos, ao lado dos miomas uterinos, são os achados mais comuns durante exames de imagem ginecológicos. Por vezes, levam a diagnósticos incorretos, e preocupações injustificadas.  

O termo “cisto” ovariano pode abranger uma ampla variedade de situações, desde cistos comuns de ovulação que não representam qualquer doença, até mesmo o câncer de ovário. O contexto clínico no qual é encontrado o cisto ovariano é o mais importante para tomada de decisões.

Como destacado pelo doutor Redwine, raramente os cistos ovarianos podem explicar dores pélvicas, e assim raramente deveriam motivar cirurgias de urgência. Quando necessárias, as cirurgias devem ser preferencialmente realizadas por laparoscopia, salvo exceções bastante específicas.

Assim, diante do achado de um cisto ovariano, devemos nos perguntar:

1 – O cisto pode explicar meus sintomas?

2 – Qual a causa mais provável do cisto?

3 – Pode-se afastar a possibilidade de câncer ovariano com segurança?

4 – É necessária uma cirurgia de urgência?

5 – Qual a probabilidade de ruptura ou torção caso o cisto não seja retirado cirurgicamente?

 Assim, em consulta com seu ginecologista, você poderá decidir a melhor conduta, e que deve ser a mais conservadora possível.

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