Entrevista exclusiva com doutor Eduardo Valle, novo parceiro do blog no Rio!

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Hoje apresentamos a você, querida leitora, nosso novo parceiro do blog: doutor Eduardo Valle, do Rio de Janeiro. Achar o doutor Eduardo foi igual procurar agulha num palheiro, mas ufa, consegui!

Conheci o doutor Eduardo na palestra do “Pauta Feminina”, que participamos juntos no Senado Federal em setembro de 2018, clique e assista aqui a palestra dele logo após a minha, que abre o encontro, mas nosso contato foi muito rápido.

Diariamente eu recebia mensagens pedindo indicação de cirurgião excisista na Cidade Maravilhosa, mas eu não conhecia. Em julho precisei de uma indicação para a filha de uma colaboradora do blog – aquela que está com endometriose umbilical aos 16 anos – e perguntei ao doutor Alysson Zanatta: “Quem faz o trabalho igual ao seu no Rio?”

De pronto ele indicou o doutor Eduardo e o feedback que tive da minha colaboradora foi excelente. Não tive dúvida que queria ele na minha equipe. Começamos a conversar, ele leu os textos do blog e disse que tem a mesma abordagem sobre a doença.

Ginecologista e obstetra de formação, o doutor Eduardo Valle tem vasta experiência cirúrgica na área ginecológica. Há 23 anos dedica-se exclusivamente às cirurgias minimamente invasivas ginecológicas e há 17 opera endometriose por remoção máxima da doença.

Atualmente coordena o Centro de Cirurgia Minimamente Invasiva para Patologias Ginecológica no bairro de Ipanema, na capital fluminense, e tem a endometriose e a cirurgia de excisão/ ressecção como sua principal área de atuação. Leia o míni-currículo do doutor Eduardo após a entrevista. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Nesta entrevista exclusiva você vai conhecer um pouco mais dele e saber também seus conceitos em relação à endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

Caroline Salazar: Quando e como começou o seu interesse pela endometriose?

Doutor Eduardo Valle: Meu interesse pela endometriose começou há 23 anos, em 1996 quando comecei a frequentar o Hospital Moncorvo Filho, do Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá fui apresentado a laparoscopia para avaliar pacientes com infertilidade.

Caroline Salazar: Qual a abordagem que o doutor teve sobre a doença na universidade?

Doutor Eduardo Valle: Final dos anos 90 comecei a fazer cirurgias laparoscópicas e o que nos ensinavam no serviço universitário era cauterizar os focos pretos. As cirurgias eram muito incompletas e com resultados muito ruins. Após as cirurgias, sempre prescrevíamos medicações hormonais para controle da doença.

Caroline Salazar: A excisão cirúrgica com remoção máxima da doença, que em muitos casos promove a cura da endometriose, não é tão difundida nas universidades. Como surgiu o interesse do doutor para essa linha cirúrgica?

Doutor Eduardo Valle: Fui apresentado à excisão laparoscópica para retirada total dos focos de endometriose há 17 anos. Foi em 2002 em um curso em Londrina, no Paraná, promovido pelo doutor Ricardo Pereira, que aprendeu por vídeos as técnicas e os conceitos do doutor David Redwine e começou a disseminá-los entre os médicos, nos apresentou uma cirurgia laparoscópica excisista para endometriose profunda. Foi uma mudança profunda de paradigma, pois consegui enxergar que ali havia uma solução verdadeira e definitiva para o tratamento da endometriose. Desde então, passei a executar minhas cirurgias com este objetivo.

Caroline Salazar: Como o doutor explica a endometriose?

Doutor Eduardo Valle: Atualmente após vivenciar centenas de casos tenho alguns conceitos bem formados sobre a endometriose:

  • A paciente já nasce com uma característica genética de ter os focos semelhantes ao endométrio fora do útero (endometriose);
  • A quantidade e localização dos focos de endometriose variam em cada paciente;
  • A evolução da doença depende basicamente de dois fatores: a intensidade da ativação dos focos de endometriose causada pelo estrogênio (hormônio produzido pelo ovário) e da intensidade da reação inflamatória que cada paciente faz sobre seus focos de endometriose quando ativos;
  • Os sintomas são variados e dependem dos focos ativados da doença estarem próximos a determinadas terminações nervosas.

Caroline Salazar: Quando a paciente chega em seu consultório, qual sua abordagem em relação a doença?

Doutor Eduardo Valle: Inicialmente é importante escutar a paciente com atenção. Escutar suas queixas e os sintomas apresentados por ela ao longo de sua vida, os tratamentos clínicos e cirúrgicos prévios, a relação com as pessoas próximas e os desejos futuros. Baseado na história clínica, avalio cada sintoma referido para correlacionar com os possíveis locais acometidos. O próximo passo é o exame físico para tentar localizar os possíveis focos da endometriose. Em seguida, de acordo com os resultados da história clínica e do exame físico solicito exames de imagem, tais como, ressonância magnética ou ultrassonografia, ambos com protocolo para endometriose, para buscar o mapeamento mais completo da doença. Outros exames podem ser solicitados de acordo com os objetivos de cada paciente.

Caroline Salazar: Há ainda muita resistência por parte das portadoras quando o doutor fala que é possível erradicar a doença?

Doutor Eduardo Valle: Sim, pois a maioria das pacientes tem informações de outros médicos e relatos de outras pacientes que a doença é crônica, progressiva e não pode ser erradicada (curada).

Caroline Salazar: Quais os maiores receios da portadora de endometriose?

Doutor Eduardo Valle: Não conseguir se livrar dos sintomas, principalmente, da dor, e não conseguir engravidar no futuro (infertilidade).

Caroline Salazar: Com sua experiência, qual o melhor tratamento para eliminar a endometriose e devolver à portadora a qualidade de vida que ela tinha antes de começar a ter sintomas que alteram sua rotina?

Doutor Eduardo Valle: Há 17 anos venho realizando cirurgias laparoscópicas para endometriose com objetivo de excisar todos os focos de endometriose (laparoscopia excisista – lapex) e o que observo é a contínua melhora dos resultados. Com esta técnica, após a cirurgia observamos diminuição dos sintomas e/ou cura acima de 90%. No pós-operatório não prescrevo terapia medicamentosa para a maioria das minhas pacientes. A necessidade de realizarmos nova cirurgia não passa de 10% e as complicações, mesmo nos casos muito avançados, são raras, menos de 3%.

Caroline Salazar: Há muitos mitos que atrapalham o tratamento efetivo da doença. Como o doutor vê a resistência de ideias tão antigas, como: “retira todos os órgãos reprodutores que fica curada”, “engravida que você será curada”, “é só entrar na menopausa que você ficará curada”?

Doutor Eduardo Valle: São todas ideias antigas de quando se sabia muito pouco sobre a origem e a fisiopatologia da doença.

Caroline Salazar: Um dos mitos é relacionar a endometriose como “uma doença do útero”. Em que situações pode ser justificada a remoção deste órgão?

Doutor Eduardo Valle: Uma teoria de origem da doença proposta há quase 100 anos era que a endometriose vinha de pedaços de menstruação que saíam do útero pelas trompas e grudavam na pelve. Atualmente, a teoria Mülleriana de que os focos da doença já estão fora do útero desde a vida embrionária é a mais aceita. Por isso retirar o útero sadio para tratar uma endometriose de nada adianta.

Caroline Salazar: Retirar qualquer órgão sem necessidade é mutilação. Muitas mulheres retiram seus órgãos reprodutores sem necessidade e ainda são submetidas à cirurgia incompleta (por cauterização). Como o senhor vê essa mutilação e como promover a preservação da capacidade reprodutiva da mulher?

Doutor Eduardo Valle: Atualmente, com o conhecimento disponível, retirar um órgão sem necessidade não faz nenhum sentido. Para preservarmos a capacidade reprodutiva da mulher é fundamental o diagnóstico precoce e, no caso de indicação de cirurgia, utilizar a técnica laparoscópica excisista com preceitos da microcirurgia para retirar o mais completamente possível todos os focos da doença buscando preservar os órgãos reprodutivos e suas funções.

Caroline Salazar: Vários cirurgiões falam que a cirurgia pélvica para endometriose é a mais complexa que pode ser realizada no corpo humano. O que sustenta essa afirmação?

Doutor Eduardo Valle: Esta afirmação pode ser sustentada quando a equipe cirúrgica não tem muita experiência com a endometriose e teve resultados ruins e complicações severas. Ao que tenho observados é que a cirurgia, nos casos mais avançados, pode ser complexa, pois a endometriose envolve muitos órgãos e tecidos diferentes. Mas quando bem programada com completo mapeamento prévio e realizada por cirurgiões especialistas capacitados é um procedimento muito seguro e com bons resultados.

Caroline Salazar: E quando a paciente já passou por cirurgias anteriores incompletas, foi mutilada, mas continua com focos de endometriose e precisa de outra cirurgia. Como o doutor explica as diferentes cirurgias a ela?

Doutor Eduardo Valle: A explicação é que provavelmente as cirurgias prévias foram mesmo incompletas e focos de endometriose sintomáticos não foram extirpados.

Caroline Salazar: A paciente que foi ser atendida com cirurgias anteriores aceita com facilidade a indicação de novo procedimento cirúrgico ou é preciso preparação psicológica?

Doutor Eduardo Valle: Nestes casos, o apoio psicológico é muito importante devido as frustações passadas e as explicações sobre um novo procedimento cirúrgico devem ser muito bem esclarecidas.

Caroline Salazar: Existe um enorme impacto para o casal e para a família quando a mulher é acometida por essa doença. Qual a importância da participação do parceiro no tratamento?

Doutor Eduardo Valle: É fundamental que todos os membros da família entendam a doença e seus sintomas para que possam apoiar o tratamento da paciente.

Caroline Salazar: Com sua experiência, a paciente típica já vem com algum conhecimento sobre o que é endometriose? Se sim, ela vem com uma noção correta sobre a doença ou traz um conhecimento composto de escutar aqui e ali algumas noções desconexas e mitos?

Doutor Eduardo Valle: A maioria das pacientes vem com conhecimento distorcido sobre a doença e sempre é preciso esclarecer de maneira mais clara sobre a origem, a evolução, o diagnóstico e as opções de tratamento e seus resultados.

Caroline Salazar: Muitas mulheres são operadas e, além da cauterização, que queima o tecido doente impossibilitando de ter biópsia, o cirurgião está treinado apenas para procurar o tal “foco pólvora”, o mais escuro. Porém, segundo o doutor Redwine, esta manifestação foi a menos comum que ele encontrou atuando 35 anos como cirurgião excisista. No retorno pós-cirúrgico, essas pacientes escutam que não foi encontrado nenhum foco e que as dores são de sua cabeça. Como o doutor começou a perceber as diversas manifestações da endometriose e qual seu conselho para aqueles que querem aprender a enxergar os diferentes tipos de focos e a fazer a remoção total da doença?

Doutor Eduardo Valle: Comecei a perceber as diversas manifestações da doença por meio da visualização laparoscópica com grande aumento, inspecionando bem de perto todos os tecidos do interior do abdômen. O conselho para enxergar os diferentes tipos de focos e fazer remoção total da doença é acompanhar serviços que utilizam a técnica excisista.

Caroline Salazar: Muitas mulheres entram em depressão e até mesmo tiram suas próprias vidas pela falta e ou demora no diagnóstico e até mesmo por conta de cirurgias incompletas. O que precisa mudar para salvar essas vidas que estão sendo perdidas?

Doutor Eduardo Valle: A realização do diagnóstico o mais precoce possível e cirurgias laparoscópicas excisista podem ser uma saída para salvar estas vidas.

Caroline Salazar: Além da endometriose, há outras doenças que causam a dor pélvica crônica. Quais as mais comuns que surgem em seu consultório?

Doutor Eduardo Valle: A doença mais frequente que também causa dor pélvica crônica e surge no meu consultório é a adenomiose que pode ser isolada ou estar associada à endometriose. Outras doenças que causam dor pélvica crônica, tais como, as discopatias da coluna lombo-sacra e cistite de repetição também aparecem com certa frequência, mas na história elas não tem tanta relação com o período menstrual e com a endometriose.

Caroline Salazar: O A Endometriose e Eu é o blog pioneiro em difundir os conceitos e as ideias lançadas há cerca de 40 anos pelo médico e cientista americano doutor David Redwine, como a excisão com remoção máxima da doença e a possibilidade de a endometriose não ser causada pela menstruação retrógrada. Como o doutor tomou conhecimento do doutor Redwine e seus ensinamentos?

Doutor Eduardo Valle: O primeiro contado com as ideias do doutor Redwine foi em 2002 em um curso sobre cirurgias pélvicas ministrado pelo doutor Ricardo Pereira em Londrina, no Paraná. Em 2014, tive o prazer de ouvi-lo e cumprimenta-lo pessoalmente em um simpósio de endometriose em São Paulo.

Caroline Salazar: Qual seu conselho para os estudantes de medicina que pretendem se especializar em ginecologia/ endometriose?

Doutor Eduardo Valle: Entrar em contado com os ensinamentos do doutor Redwine e de outros médicos que praticam a evolução destes conceitos

Sobre o doutor Eduardo Ribeiro do Valle:

4 Comentários

  1. Jaqueline camara Em

    Aprendi que retirar todos os orgaos nao cura esta doenca,as minhas dores so pioraram e que muitos medicos nao compreendem esta doenca tao devastadora,obrigada Carol pela sua luta de nos ajudar,nos proporcionando entendimento,que muitas vezes nos perguntando se estamos loucas,obrigada doutores que se preocupam com todas nos

    • Caroline Salazar Em

      Jaqueline, querida! Estamos juntas! Junte-se a nós! Beijo carinhoso!