A endometriose é coisa de sua cabeça?

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Uma das missões do A Endometriose e Eu e da EndoMarcha é justamente o diagnóstico precoce. Quando falamos em diminuir o tempo de diagnóstico da endometriose ao mesmo tempo falamos em amenizar o sofrimento de milhares de jovens meninas, especialmente o sofrimento psicológico. 

Milhares de meninas estão sofrendo e tendo seu sofrimento ignorado. Eu mesma sou um exemplo disso. Desde que me entendo por gente, sofro no meu período menstrual e, com o passar dos anos, as dores se tornaram constantes e diárias. 

Apesar de lembrar que as minhas “dores de pontadas”, que eu as chamavam de “minhas dores de lado”, começaram muito cedo cedo, por volta dos meus 7, 8 anos, ou seja, antes da minha primeira menstruação, nesta época elas apareciam quando eu fazia mais esforço: quando brincava correndo pela rua, de pique-esconde…

Demorei 18 anos para ter o nome de tudo aquilo que sempre senti. Mas até lá sofri bastante, não apenas com as dores, mas com o julgamento das pessoas. Eu era tida como fresca, aquela que não aguentava uma dor menstrual, que inventada doenças, hipocondríaca e que tudo que eu sentia estava na minha cabeça

Espero que este brilhante texto escrito pelo doutor Roberto Albee Jr, fundador do Center for Endometriosis Care em 1990 e um experiente cirurgião excisista com 2500 cirurgias no currículo e já aposentado das cirurgias, mas ainda atendendo algumas pacientes, abra a cabeça das pessoas, especialmente dos pais, para olhar mais para seus filhos.  

Toda dor é real. Ninguém é louco de inventar uma dor, que dirá uma dor incapacitante como pode ser a da endometriose. Os pais precisam estar atento às suas filhas e às suas queixas. Afinal, eles são alicerce do bem-estar de um filho. 

A endometriose não escolhe idade para atingir uma mulher. Ela pode menstruar aos 8 anos e já ter a doença e seus sintomas começarem a se manifestar já nesta idade. E 8 anos a menina ainda é uma criança né? 

Além dos pais, o doutor Albee também chama atenção dos profissionais de saúde, especialmente, dos médicos para pensarem em endometriose quando encontrar alguma paciente jovem já com os sintomas da doença, e aborda o impacto psicológico que uma endometriose não diagnosticada causa na vida de uma menina. Isso é ainda mais grave e deve ser levado muito a sério.

Este é mais um texto que vai nos ajudar a passar uma nova conscientização da endometriose. A endometriose não é uma doença que atinge mulheres apenas na “idade reprodutiva”, mas que pode atingir meninas independente da idade.

Aproveito para dar às boas-vindas à Carise Manga, nossa nova tradutora-voluntária. Beijo carinhoso, Caroline Salazar 

Por doutor Robert Albee Jr
Tradução: Carise Manga
Edição: Caroline Salazar
 

A endometriose é coisa de sua cabeça?

 

Através desse texto eu espero poder expressar o impacto psicológico que uma endometriose não diagnosticada pode causar na vida de uma jovem.

Um dos tópicos mais comumente desconsiderados entre os profissionais da área médica, quando se discute os problemas relacionados à endometriose , é o impacto psicológico causado pela doença nas pacientes mais novas, principalmente nas adolescentes.

Pela minha experiência posso afirmar que geralmente existe um espírito de compaixão quando se trata de pessoas de pouca idade vitimadas com doenças ou ferimentos, mas infelizmente não posso afirmar o mesmo quando se refere a inúmeras pacientes jovens incapacitadas pelas dores causadas pela endometriose .

A dura realidade é que se essas adolescentes não tiverem um pai, uma mãe, ou algum profissional da área de saúde que acredite nelas e esteja comprometido e determinado a encontrar um diagnóstico que explique sua dor, elas muito provavelmente irão sofrer mudanças drásticas em suas vidas a medida que os sintomas da endometriose se tornem severos.

Por que o diagnóstico de endometrioses é tão demorado?

Antes de descrever as consequências naturais da falha em diagnosticar a endometriose em adolescentes e jovens, eu gostaria de resumidamente examinar as razões mais comuns pela qual essa doença normalmente leva entre sete a 10 anos para ser corretamente diagnosticada.

A endometriose normalmente causa inúmeros sintomas diferentes e cada paciente apresenta uma combinação única desses sintomas.

Apesar de existir um sub-grupo de mulheres que não sentem dor, apesar da severidade da doença, o grupo de pacientes que vou focar sofre com os sintomas severos , muitas vezes incapacitantes, que são resultado da evolução da doença, que se tratada no início da apresentação dos sintomas, teria sido cirurgicamente referida como mínima ou leve.

Esses sintomas muitas vezes transformam uma garota cheia de vida, alegre, leve e feliz em alguém amedrontada, com cada vez menos autoestima, mês a mês. Os pais geralmente dizem: “Ela não é mais a mesma garota animada e disposta que conhecemos. Não sabemos o que aconteceu com ela”.

Minha visão sobre o que aconteceu com ela:

Primeiramente e acima de tudo essa garota está tendo que lidar com sintomas graves e incapacitantes sem alguém que possa entendê-la e explicar para ela a causa real de seu sofrimento.

E ainda pior: não existe ninguém oferecendo à ela uma solução, uma saída para aquele sofrimento, para que ela volte a ter uma vida normal de novo.

Algumas se tornam estigmatizadas como simplesmente alguém que não consegue lidar com os infortúnios de uma menstruação.

Outras se sentem constrangidas por não poderem usar absorvente interno em atividades como natação, por exemplo, por não suportarem a dor e o desconforto que ele causa.

As idas à enfermaria da escola e ao pediatra começam a ficar mais frequentes a partir dali, mas quando nenhuma ajuda real aparece, a esperança de encontrá-la vai desaparecendo.

As faltas na escola começam a aumentar e manter os laços de amizade como uma adolescente normal vai se tornando cada vez mais difícil.

Como resultado, muitas dessas garotas acabam desistindo de praticar esportes que gostavam por eles agravarem a intensidade das dores.

A frustrante jornada em busca do diagnóstico e tratamento da endometriose:

As futuras idas aos médicos provavelmente resultarã0 em tratamentos com o objetivo de reduzir/regular a produção normal de alguns hormônios.

Alguns efeitos colaterais causados pelas drogas usadas nesses tipos de tratamentos, podem ser tão desagradáveis ao ponto de fazer a paciente se questionar se não seria melhor parar o medicamento que nem sempre reduz os sintomas da doença – e com certeza não ajuda na erradicação da mesma -, e simplesmente continuar com a dor.

Em algum momento ao longo dessa jornada certamente aparecerá algum médico ou alguém da área de saúde que sem qualquer empatia irá insinuar que todo aquele drama, real e físico “é coisa da cabeça da garota”.

Com o passar do tempo muitos passarão também a se questionar o mesmo e desconfiar que tudo não passa de fingimento ou frescura. É triste, mas alguns pais confusos e sem informação passam a duvidar de suas filhas também.

Lidando com salas de emergência de hospitais:

E, por último, em algum momento provavelmente a dor será tão severa que essa garota precisará ser levada a uma sala de emergência de hospital.

Nos Estados Unidos, os atendimentos médicos com esses sintomas têm como protocolo/obrigação investigar  possíveis causas como: apendicite, gravidez e doença sexualmente transmissível.

Isso significa que essa garota será obrigada a fazer exames de sangue, teste de gravidez e, normalmente, ultrassom ou tomografia computadorizada.

Depois que tudo isso é feito e os resultados dos exames descartam as doenças citadas no protocolo, ela deixa o pronto-socorro de cabeça baixa e alguma medicação para dor. Pior do que isso, ela se sente fisicamente violada e emocionalmente exausta por toda experiência.

Para a paciente esse sentimento de ter sido violada não é muito diferente de ser vítima de uma violação física em qualquer outro lugar .

Minha experiência com jovens com endometriose:

Muito comumente eu recebo pacientes que não acreditam em mim quando as ofereço uma esperança. Muitas já tentaram suicídio, muitas estão com raiva e outras já desistiram de lutar e decidiram viver à base de remédios para dor para simplesmente sobreviverem.

Eu escrevo esse texto como um apelo para os profissinais da área médica e toda indústria do ramo para que haja um engajamento por um aumento considerável de diagnósticos precoce da endometriose já no início da manifestação de seus sintomas, ou seja, em jovens e adolescentes.

A maior parte desse engajamento precisa estar focado na educação e na formação dos nossos profissionais.

Eu acredito que devemos começar à partir de nossas instituições educacionais:

– Faculdades de medicina;
– Programas de residência em ginecologia e pediatria;
– Faculdades de enfermagem.

Um diagnóstico precoce com a devida intervenção médica pode preservar a qualidade de vida da paciente e reduzir as taxas de morbidade da doença, de infertilidade e de progressão dos sintomas.

E, acima de tudo, por favor, quando uma jovem te disser que esta com dor, acredite nela!

Fonte texto: Endometriosis.org
Fonte imagem: Deposit Photos/ Caroline Salazar

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