Endometriose e dor – tipos e localização focos influenciam na intensidade!

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Em mais um texto exclusivo, o doutor Robert Albee Jr. aborda a endometriose e a dor peculiar que ela causa em cada mulher, afinal, como ele mesmo diz no texto: “cada dor é única”.

O especialista americano explica os tipos de dores, a localização e os fatores que influenciam a dor das endomulheres. Segundo doutor Albee, os focos próximos às terminações nervosas geralmente doem mais que os mais distantes.

Ele também fala sobre aderências, dor neurogênica, atividade física e até mesmo dos benefícios secundários de quem sente dor.

Como já falávamos aqui no A Endometrise e Eu: cada caso é um caso! As dores se manifestam de forma única nas pacientes. O ponto alto do texto, a meu ver, é quando o doutor Albee fala do aumento de dor por conta da tensão e dos desarranjos gastrointestinais que a raiva e os ressentimentos nos trazem. Gostei muito desta parte, pois é um grande alerta!

Compartilhe mais um texto exclusivo do blog A Endometriose e Eu e ajude-nos a levar uma nova conscientização da endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar

Por doutor Robert Albee Jr.
Tradução: Miriam Ávila
Edição: Caroline Salazar

Endometriose e Dor

Poderíamos pensar que a dor causada pela endometriose seria algo que toda a paciente deveria compreender de forma igual, mas infelizmente este não é o caso.

A dor da endometriose é multifatorial e diferente para cada paciente. Então, quando uma pessoa diz: “Estou sentindo dor devido à minha endometriose”, outras pacientes podem presumir que sabem exatamente o que ela está sentindo. A verdade é que a dor causada pela endometriose é única para cada paciente.

Um resultado indesejável da associação de um grupo específico de sintomas com o diagnóstico da doença é que isso pode levar a um diagnóstico tardio – ou nenhum diagnóstico, prolongando assim o sofrimento e aumentando a probabilidade de avanço da doença.

Os fatores que influenciam o tipo de dor que cada paciente vivencia incluem:

  • A localização da(s) lesão(ões) de endometriose;
  • A quantidade de inflamação ao redor da lesão e o suprimento de sangue para ela;
  • A proximidade da(s) lesão(ões) ao suprimento nervoso local;
  • Os órgãos afetados (peritônio, tuba uterina, ovários, parede da bexiga, parede do intestino, parede ureteral, parede vaginal, etc.);
  • A presença de aderências na área;
  • A presença ou ausência de dor prévia na mesma área;
  • O uso concomitante de medicamentos, incluindo, mas não limitado a:
    • Agentes anti-inflamatórios;
    • Agentes narcóticos;
    • Relaxantes musculares;
    • Drogas moduladoras da serotonina;
    • Medicamentos supressores da ovulação;
  • Atividade física;
  • Aplicação de calor e/ou frio;
  • Qualquer benefício prático ou psicológico (se o paciente está ciente disso ou não) que o paciente recebe por “estar com dor”;
  • Raiva e ressentimento que resultam em tensão muscular.

É uma tarefa difícil tentar descrever cada tipo e localização de dor que as pacientes de endometriose podem sentir e por que acontecem dessa forma, mas eu gostaria de tentar descrever alguns deles.

Se a sua situação específica não se enquadrar nesta lista, envie-me um e-mail e tentarei incluí-la assim que houver oportunidade.

Tipos de dor:

Dor cônica: Veja o exemplo acima. Muitas vezes penso em nervos envolvidos ou pressão interna quando escuto esta queixa.

Cólicas: a dor é progressiva e depois se torna uma dor residual, ou seja, persistente. É frequentemente associada a lesões na parede do intestino ou perto dele. À medida que a parede do intestino se dilata para permitir a passagem de gás/líquido/material sólido, a lesão é variavelmente impactada.

Menstrual: sangramento menstrual anormal, coagulação, câimbras e etc., podem estar associados a várias causas diferentes e a endometriose é uma delas. Futuramente iremos mencionar outras causas para períodos menstruais dolorosos. Aqui é importante saber que outros diagnósticos devem ser considerados quando se tenta compreender menstruações atipicamente complicadas.

Inchaço abdominal: geralmente significa que por uma razão ou outra, a transferência de gás/líquido/sólido através do intestino é retardada e o diâmetro do intestino está aumentado. A paciente está basicamente “grávida” do intestino dilatado.

Pontadas/Facadas/Dor aguda: pode ocorrer se o sangue é liberado na cavidade abdominal e inflama o peritônio ou se o músculo contendo lesões de endometriose é esticado ou movido. A dor aguda também é relatada quando qualquer área de endometriose recebe pressão direta, como as lesões da parede vaginal durante a relação sexual.

Localização da dor:

A dor que ocorre desde a área acima do joelho até o meio do peito está entre os 95% dos locais relatados.

A localização da dor depende da localização da doença e dos nervos que estão próximos, mas também depende da proximidade da(s) lesão(s) em órgãos próximos e do impacto da (s) lesão(s) na função natural do órgão envolvido. Por exemplo:

– Uma lesão no topo da parede vaginal pode não causar dor em uma situação de repouso, mas pode tornar a relação sexual extremamente dolorosa, porque a relação sexual exerce pressão direta sobre o local da lesão. Uma paciente pode dizer: “Só dói quando faço sexo”.

– Ou uma lesão na parede do intestino na área do reto pode causar dor quando há necessidade de evacuar e dor extrema – “Eu desmaio toda vez que vou ao banheiro” -, quando alguém tenta fazer um movimento intestinal. No entanto, após a defecação, essa mulher pode se sentir bem.

– Ou uma lesão na superfície do ovário (ou um endometrioma dentro do ovário) pode causar dor extrema na época da ovulação. A dor dessa pessoa pode aumentar gradualmente após a menstruação e, na verdade, desaparecer quando a menstruação seguinte finalmente começa (quando o ovário retorna ao seu tamanho de repouso).

– Ou uma lesão na pelve posterior próxima ao suprimento nervoso local pode causar uma dor lombar crônica que parece nunca desaparecer.

A dor do envolvimento ureteral pode simular sintomas de obstrução urinária e a dor nas lesões da parede intestinal pode causar distensão de todo o abdômen.

O cenário bem descrito de cólicas menstruais dolorosas e dor nas costas é com certeza muito comum e pode até mesmo estar associado a náuseas e vômitos menstruais, mas é muito importante entender todos os outros sintomas que podem ser causados ​​pela endometriose para que o diagnóstico seja reconhecido.

Inflamação:

A inflamação é definida como “reação dos tecidos aos agentes nocivos” e “pode ​​estar associada a vermelhidão, inchaço, dor, sensibilidade e calor”. A inflamação geralmente causa dor.

As lesões da endometriose podem causar inflamação ao redor ou não. Algumas lesões parecem ser toleradas pelo organismo sem qualquer reação circundante.

Sabemos que isso é verdade porque podemos ver no momento da cirurgia diferenças óbvias na reação ao redor do tecido quando a inflamação está presente.

Lesões da doença sem inflamação podem não causar nenhuma dor. Por exemplo, a endometriose pode ser diagnosticada pelo cirurgião em uma cirurgia não relacionada à doença, como por exemplo numa apendicectomia (retirada do apêndice). Quando questionadas no pós-operatório, algumas pacientes nunca sintomas.

Proximidade aos nervos sensoriais locais:

O suprimento de nervos sensoriais não é uniformemente distribuído por todo o corpo e, particularmente, pelo pavimento pélvico. Um lado do corpo pode ser diferente do outro.

Os tecidos adiposos mesentéricos têm uma configuração diferente dos nervos sensoriais do que os ligamentos úterossacrais. Como resultado, lesões localizadas longe de feixes nervosos podem ter pouco ou nenhum efeito sobre a dor.

Envolvimento de órgãos com endometriose:

Ovários, trompas de falópio, paredes intestinais, ureteres, paredes da vagina e da bexiga são órgãos vitais que funcionam independentemente na parte inferior do abdômen e da pelve.

Quando a função de um ou mais destes órgãos é afetada pela presença de endometriose pode causar dor. Veja acima exemplos de diferentes tipos de dor que podem ocorrer.

Aderências:

As aderências são criadas quando o corpo reage à lesão. Elas podem ser finas, teias filamentosas, faixas brancas densas ou ligamentos semelhantes a cola que se estendem de uma estrutura à outra.

As aderências podem se formar em torno de áreas da endometriose ou ocorrer após a cirurgia para remover a doença. Sempre que esses ligamentos limitam a mobilidade livre do órgão, eles causam dor.

Um histórico de dor na mesma área:

Quando alguém teve dor severa em uma área específica no passado, a sensibilidade nessa área pode aumentar. Ainda não sabemos a razão científica para isso acontecer, mas acreditamos que é real – e não imaginário.

Uso concomitante de medicação:

Em primeiro lugar, gostaria de fazer um apelo à vigilância pessoal no uso de medicamentos e suplementos. Na minha experiência, profissionais de saúde e farmacêuticos fazem um bom trabalho em antecipar a interação medicamentosa.

A melhor e mais segura maneira de adicionar qualquer medicação é pesquisá-la primeiro. Isso pode ser feito online em vários sites, como https://www.webmd.com/interaction-checker/default.htm.

Narcóticos, relaxantes musculares, antiinflamatórios e drogas moduladoras da serotonina podem afetar a dor que a paciente sente em um determinado momento. Como seus mecanismos de ação são diferentes, os profissionais de saúde podem usá-los de forma independe ou combinados.

Em cada categoria, o uso regular prolongado do medicamento pode causar uma dependência psicológica; portanto, aconselho extrema cautela com a reavaliação profissional regular quando terapias prolongadas contra a dor estiverem sendo usadas.

Além disso, tanto os narcóticos como os relaxantes musculares podem induzir dependência requerendo atenção médica.

Drogas que suprimem a ovulação podem reduzir a dor inibindo o aumento natural do tamanho dos ovários que ocorre durante o ciclo ovariano natural.

O efeito secundário de minimizar os altos e baixos de estrogênio/progesterona também pode reduzir a dor e o fluxo menstrual (ou até mesmo cessar a menstruação por completo).

Calor e frio:

O calor tende a aumentar a circulação nos tecidos e pode ser uma grande ajuda; no entanto, pode estar associado a inchaço localizado nos tecidos. Isso pode aumentar o desconforto.

O frio tende a reduzir o suprimento de sangue e reduzir o inchaço. Pode também tender a relaxar os músculos tensos.

Terapias alternadas de calor/frio são um método bem conhecido que auxilia no controle a dor e é apropriado para pacientes com endometriose.

Veja também minha nota sobre como evitar o calor extremo na parede abdominal. Eu tenho visto muitos casos de distrofia de gordura de calor intenso usado por causa da dor abdominal incapacitante.

Atividade física:

Como observado anteriormente, a atividade física pode ou não aumentar a dor. O movimento de tecidos contendo lesões/cistos circundados por inflamação frequentemente torna o exercício desconfortável. No entanto, há grande variação individual e há algumas que são capazes de se exercitar sem dor.

É raro que alguém precise evitar o exercício se ele não causar dor (talvez grandes cistos ovarianos requeiram cautela) e, em geral, acho que o exercício, quando possível, é algo positivo.

Dor neurogênica:

A dor neurogênica é definida como dor decorrente de disfunção do sistema nervoso periférico ou central, na ausência de estimulação do nociceptor (terminal nervoso) por trauma ou doença.

É difícil saber com que frequência a dor neurogênica ocorre em pacientes com endometriose, mas há momentos em que suspeito que essa seja a origem da dor.

Por exemplo, eu elimino a doença de uma paciente que sofreu por anos devido a erros de diagnóstico e tratamentos ineficazes. Ela retorna com a mesma dor que relatou no passado.

No entanto, em uma segunda laparoscopia, não há endometriose e não há aderências para explicar a dor.

Benefícios secundários de sentir dor:

Não posso deixar de mencionar que os psicólogos/psiquiatras nos dizem que a dor pode ser sentida sem uma causa óbvia. Às vezes, a causa está presente, mas não a encontramos.

Às vezes, a presença de dor permite evitar atividades “indesejáveis” específicas (trabalho, sexo, viagens, exercícios físicos, etc.). Na última situação, trabalhamos para resolver o problema errado, procurando por uma fonte de dor, quando nenhuma foi encontrada.

Eu defendo uma busca completa por fontes de dor, mas tento também procurar benefícios secundários por ter dor. Muitas vezes a paciente não tem consciência de que a presença da dor está trazendo outro benefício em sua vida.

Raiva e ressentimento que resultam em tensão muscular:

Isso provavelmente não é algo que você esperaria que um especialista em endometriose incluísse em seu texto, mas acho que pode ter valor para algumas pessoas.

A raiva (de qualquer tipo e de qualquer fonte) causa aumento da tensão muscular e aumento da motilidade gástrica, entre outras respostas fisiológicas no corpo.

Se houver um local no corpo que esteja lesionado ou inflamado, ele será particularmente sensível aos aumentos circunvizinhos da tensão muscular.

Aquelas pacientes de endometriose com sintomas gastrointestinais podem ver seus sintomas aumentar em torno de situações de raiva significativa.

Fonte texto: https://topendodoc.com/
Fonte imagem: Deposit Photos/ Caroline Salazar

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