Endometriose: não apenas uma doença reprodutiva!

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A endometriose é uma doença que pode afetar qualquer órgão do corpo de uma mulher e não apenas os órgãos reprodutores, como geralmente é vista.

Propagar o mito de que a endometriose é uma doença do “sistema reprodutor”, que vem do endométrio que descama do útero, contribui para mutilações desnecessárias e tratamentos incompletos e ineficazes.

Apesar de a dor – especialmente a cólica – e a dificuldade para engravidar estarem entre os principais sintomas, a endometriose é muito mais que uma doença reprodutiva.

No texto, a doutora Phillipa Cook explica por que esse mito precisa ser erradicado e fala de um estudo do doutor David Redwine, publicado há mais de 3 décadas, que mostra que o útero e os ovários não são os órgãos mais afetados pela doença.

Esse estudo também comprova que a endometriose não é uma doença que se espalha de acordo com o tempo e ou idade da mulher, visto que as mulheres mais velhas não tinham mais focos em relação às mais novas.

Os mitos, estigmas e rótulos precisam ser abolidos o quanto antes, pois além de atrasar o diagnóstico, eles também atrapalham e impedem que o tratamento seja o mais efetivo possível.

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Por doutora Phillipa Cook 
Tradução: doutor Alysson Zanatta
Edição: Caroline Salazar

Endometriose – não apenas uma doença reprodutiva!

A endometriose é comumente entendida como uma doença do sistema reprodutivo, possivelmente devido ao fato de que um sintoma comum é a menstruação dolorosa e que pode causar infertilidade.

A verdade é que a endometriose não é apenas uma doença reprodutiva de fato. Ela pode afetar os órgãos reprodutivos, mas ela também afeta normalmente outros órgãos como o intestino e a bexiga.

Mais raramente, ela também pode afetar áreas fora da pelve como o nervo ciático, o diafragmaos pulmões e até mesmo o músculo da panturrilha.

Além dos sintomas pélvicos específicos como a dor pélvica, a disfunção vesical e intestinal e as relações sexuais dolorosas, muitas mulheres com endometriose relatam sintomas sistêmicos como fadiga e mal estar geral, e mulheres com endometriose têm uma incidência maior de doenças como as autoimunes, alergias, doença inflamatória intestinal e até um risco pouco mais elevado de câncer de ovário. As relações entre a endometriose e outras doenças não são bem compreendidas.

Muitas pessoas podem estar familiarizadas com o fato de que a endometriose é causada por tecido endometrial localizado erradamente na pelve e que forma lesões, cistos e nódulos.

Entretanto, dada a sua reputação como uma doença reprodutiva, muitas pessoas acreditam que a endometriose geralmente cresce nos órgãos reprodutivos – ovários e útero.

Descobriu-se que não era esse o caso e apesar dos estudos que demonstram que os locais mais comuns das lesões de endometriose não são os ovários ou o útero terem sido publicados há mais de 30 anos, este entendimento equivocado ainda persiste nos dias de hoje, mesmo entre os médicos.

O doutor David Redwine, pioneiro cirurgião laparoscópico da endometriose, publicou em 1989 um estudo sobre a distribuição da endometriose na pelve de acordo com a faixa etária.

Este estudo descreveu as localizações da endometriose na pelve em 132 pacientes consecutivas que passaram por cirurgia. O local mais comum onde as lesões de endometriose foram encontradas, em todas as faixas etárias, foi o fundo de saco, que é a área atrás do útero, entre o útero e o reto.

Em seguida, as áreas mais comuns foram os ligamentos da pelve (o ligamento largo, o ligamento úterossacro, com o lado direito sendo mais acometido que o esquerdo).

Após os ligamentos, a bexiga foi mais comumente envolvida e o ovário esquerdo. Então o fundo do útero (a parte superior, oposta ao colo uterino), o cólon sigmoide (intestino), o ovário direito, e finalmente as trompas de Falópio, os ligamentos redondos e a parede abdominal.

Este estudo também sugeriu que, ao contrário do entendimento comum de que a endometriose se espalha por outras áreas da pelve com o passar do tempo, ela na realidade não se espalha.

As lesões de endometriose podem crescer e se aprofundarem, levando a sintomas mais significativos e potencialmente a lesão de órgãos.

Entretanto, neste estudo, mulheres mais velhas não tinham mais áreas da pelve acometidas por endometriose do que mulheres mais jovens, o que seria esperado caso a endometriose se espalhasse com o passar do tempo.

O mais interessante deste estudo não são os resultados propriamente ditos, mas sim a constatação que 30 anos mais tarde, seus resultados e implicações para o tratamento da endometriose não foram incorporados à prática clínica diária por muitos médicos.

Antes de tudo, a endometriose como uma doença multissistêmica requer expertise cirúrgica que muitas vezes vai além do que a maioria dos ginecologistas são treinados para lidar.

E, ainda, muitos ginecologistas que não têm as habilidades cirúrgicas para removerem a endometriose de áreas sensíveis como o cólon sigmoide ainda continuam a tratar pacientes com endometriose, ao invés de encaminhá-las para especialistas em endometriose.

Mais importante, porém, a diminuição da endometriose como simplesmente uma doença do sistema reprodutivo parece levar à uma falta de entendimento dos sintomas debilitantes que ela pode causar.

Estudos sobre a qualidade de vida das mulheres com endometriose demonstram que mulheres ainda continuam a sofrer com sintomas frequentes como dor crônica, que afetam sua qualidade de vida, mesmo após o tratamento para a endometriose. 

A dor severa da endometriose é menosprezada de uma tal maneira que as dores causadas por outras doenças não o são. Nancy Petersen, uma conhecida ativista da endometriose e Diretora Fundadora do primeiro Programa de Ressecção Cirúrgica de Endometriose nos Estados Unidos, comparou a dor da endometriose à dor da apendicite aguda.

Durante os episódios agudos de dor, os médicos frequentemente tratam as pacientes com Tylenol ou naproxeno – será que os médicos pensariam nessas medicações para tratar a dor de uma apendicite aguda?

Por quanto tempo irá durar o subtratamento da dor da endometriose pelos médicos devido à percepção que ela é apenas “um problema de mulher” e que, portanto, não pode ser séria ou dolorosa?

Nota do Tradutor: Nós, médicos, tratamos a doença da forma como a entendemos, utilizando o melhor de nossos conhecimentos que nos foram passados. Mas quando entendemos a doença de forma errada, também temos chances de tratá-la de forma errada.

Como bem colocado pela doutora Phillipa Cook, entender a endometriose apenas como uma doença reprodutiva, que é progressiva ao longo dos anos e que é causada pela menstruação retrógrada, entre tantos outros, contribui para perpetuar os tratamentos ineficazes.

Constatações claras e verídicas sobre a doença, como aquelas demonstradas por este estudo do doutor Redwine há mais de 30 anos, não são incorporadas às práticas médicas de muitos profissionais.

Motivos para tal são vários, o principal talvez a crença messiânica de que a doença seria causada pela menstruação.

Faremos progressos reais quando disseminarmos as informações corretas e comprovadas sobre a endometriose.

Nesse sentido, talvez as pacientes portadoras da doença e a população geral estejam mais avançados do que a própria classe médica. Abraço, Alysson

Fonte texto: Hormones Matter

Imagem: Deposit Photos/ Caroline Salazar
Texto publicado no blogspot dia 22 de dezembro de 2014

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