Entrevista exclusiva com o doutor Tomyo Arazawa, novo parceiro do blog!

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Hoje o A Endometriose e Eu apresenta aos leitores nosso novo parceiro do blog: o doutor Tomyo Arazawa. Formado pela Universidade de Medicina de São Paulo (FMUSP), onde foi preceptor da disciplina de Ginecologia, é o responsável técnico da Clínica Alira, onde atende na capital paulista, e é mais um médico que faz a excisão com remoção máxima da endometriose.

Nesta entrevista exclusiva você vai conhecer um pouco mais dele e saber também seus conceitos em relação à endometriose. O que eu posso adiantar é que o doutor Tomyo está cada vez mais se dedicando à endometriose e, por ser jovem, não irá tratar apenas as endomulheres de agora, mas sim a futura geração. 

Eu realmente me preocupo com as próximas gerações de portadoras, pois não quero que elas passem pelo nosso sofrimento. Mas minha maior alegria foi saber que a partir de algumas aulas do doutor David Redwine, no mesmo congresso que fui em 2014, ele mudou seu conceito sobre a doença e mergulhou de cabeça em aprimorar sua técnica cirúrgica para a excisão da endometriose. Beijo carinhoso! Caroline Salazar 

 

Caroline Salazar: Quando e como começou o seu interesse pela endometriose?

Doutor Tomyo Arazawa: Meu interesse pela endometriose começou durante minha especialização em cirurgias minimamente invasivas. Muitas das cirurgias de pacientes com endometriose eram extremamente desafiadoras, e isso me chamou muito a atenção. Na minha vida sempre busquei desafios, tanto técnicos quanto de conhecimento. E vejo a endometriose como uma das doenças mais desafiadoras, tanto para controle e qualidade de vida, quanto no tratamento cirúrgico. Hoje tenho uma compreensão muito maior de todos os aspectos que essa doença afeta na vida da mulher.

Caroline Salazar: Como o doutor caracteriza a endometriose?

Dr Tomyo Arazawa: Vejo a endometriose muito mais que somente um tecido semelhante ao do endométrio fora do útero. As lesões de endometriose são somente a ponta do iceberg do impacto que elas trazem à vida da mulher e toda sua vida. É uma doença que não pode ser menosprezada, pois pode literalmente acabar com a vida e os sonhos de uma família inteira. É muito difícil ver doenças que afetem tanto a qualidade de vida de uma pessoa como a endometriose, ainda mais quando se fala de uma doença tão frequente nas mulheres. Além das fortes dores, a endometriose é a principal causa de infertilidade, e pode ser a causa de alterações psicológicas, como depressão e ansiedade, alterações intestinais, urinárias, qualidade de sono, sexualidade, queda da produtividade profissional, entre muitos outros impactos na vida da mulher. Muita gente pensa só na dor que ela causa, mas o reflexo na vida dessas mulheres vai muito além da dor.

Caroline Salazar: Com certeza passam muitas pacientes em busca de diagnóstico pelo seu consultório. Como portadora, eu sei o quanto essa doença afeta a vida da mulher, e também do nosso companheiro, dos familiares e amigos, além dos aspectos social e profissional. Em termos emocionais, como a paciente típica chega à sua consulta?

Doutor Tomyo Arazawa: A paciente com endometriose geralmente chega ao consultório muito ansiosa, repleta de dúvidas e desinformações. Muitas estão passando por dificuldades profissionais e conjugais, pois as dores já não a deixa trabalhar direito, ou mesmo ter relações prazerosas com seu parceiro. Vejo muitas pacientes chegando fragilizadas, já tendo passado por muitas cirurgias, e ainda sim sem melhora dos sintomas. Muitas já descrentes de uma possível melhora da dor, ou da possibilidade de ser mãe. E essa longa e sofrida história de vida infelizmente é muito recorrente nessas pacientes. Por isso a consulta acaba sendo longa, e muitas vezes uma hora é pouco para ouvir toda a história.

Caroline Salazar: Com sua experiência, a paciente típica já vem com algum conhecimento sobre o que é endometriose? Se sim, ela vem com uma noção correta sobre a doença, ou traz um conhecimento composto de escutar aqui e ali algumas noções desconexas e mitos?

Doutor Tomyo Arazawa: Certamente praticamente todas as pacientes típicas, que já sabem ou suspeita do diagnóstico de endometriose, já vêm preparadas para a consulta, com muitas perguntas e dúvidas. Mas de modo geral os conceitos que elas têm, tanto em relação à doença quanto em relação aos tratamentos são desalinhados com as reais necessidades delas. Essas desinformações e mitos acabam deixando as pacientes muito confusas, sem saber o que fazer em relação à própria saúde.

Caroline Salazar: Quais os maiores receios da portadora de endometriose?

Doutor Tomyo Arazawa: Sem dúvida o maior de todos é o medo de não poder engravidar e não conseguir realizar o sonho de ser mãe. Isso porque a maioria dessas pacientes descobre a endometriose ao parar o anticoncepcional para a tentativa de gestação. Para quem não está tentando engravidar e sofre com as dores e outros sintomas, é o receio de que não seja uma doença como os exames indicam. Já outras pacientes que sofrem há muitos anos, o principal receio é de ter que conviver com as dores insuportáveis para o resto da vida, o que as deixa muito desanimadas. Mas para todas essas situações existem tratamentos seja ele para melhorar a fertilidade, controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

Caroline Salazar: Muitas referem à infertilidade como a maior consequência da doença. Sabemos que o principal sintoma é a dor, cerca de 80% sofrem com as dores severas, mas ela geralmente é tratada como um sintoma secundário. Como o doutor lida com isso no consultório?

Doutor Tomyo Arazawa: A única pessoa capaz de distinguir qual sintoma da endometriose é o mais importante é a própria paciente. Somente ela sabe de suas prioridades e sonhos. A infertilidade é uma das consequências da doença. Para algumas mulheres é a principal. Para outras não. Na consulta é fundamental alinhar as prioridades de cada paciente às suas expectativas, para assim determinarmos o melhor tratamento para aquela paciente. Por isso as condutas são individualizadas.

Caroline Salazar: Além da endometriose, há outras doenças que causam a dor pélvica crônica. Quais as mais comuns que surgem em seu consultório?

Doutor Tomyo Arazawa: A dor pélvica pode ter muitas causas, o que acaba confundindo muito até nós, profissionais da área da saúde. Além da endometriose, doenças como adenomiose, miomas uterinos, congestão pélvica e doença inflamatória pélvica (infecção genital) são as mais frequentes dentre as doenças ginecológicas. Outras causas como a Síndrome do Intestino Irritável, Síndrome da Bexiga Dolorosa e a Síndrome Miofascial também são diagnósticos diferenciais. Muitas mulheres com dor pélvica têm associação de fatores e sintomas, o que por sua vez acaba dificultando ainda mais o diagnóstico e tratamento. Mas, alguns desses sintomas podem aparecer como consequência de uma mesma causa. A dor pélvica causada pela endometriose, por exemplo, pode evoluir para vários sintomas, com uma causa única.

Caroline Salazar: Entre as frases comuns que se escutam por aí estão: “Engravide que a endometriose passa”, ou “Depois da menopausa, não terá mais endometriose”. O que o senhor acha sobre isso?

Doutor Tomyo Arazawa: Endometriose é uma doença que não some sozinha. Os sintomas podem até melhorar, e as lesões diminuir com alguns tratamentos hormonais ou após a menopausa. Mas não se enganem: mesmo com a melhora dos sintomas, as células de endometriose provavelmente estarão lá. Quanto à cura da endometriose com a gravidez a mesma coisa. Na gestação os ovários ficam inativos por pelo menos 9 meses, fora os meses de amamentação. Os sintomas podem melhorar nesse período e as lesões podem ficar menos ativas, com isso a qualidade de vida da mulher pode até melhorar. Mas o acompanhamento é essencial, pois muitas dessas mulheres voltam a ter sintomas depois que os hormônios voltam à ativa. Quanto à menopausa é preciso ter muito cuidado principalmente com as pacientes com endometriose profunda, especialmente com lesões próximas aos ureteres. Isso porque com a menopausa e redução dos hormônios as lesões tendem a retrair e fibrosar. Se a lesão estiver envolvendo os ureteres, há risco potencial de estenose dos ureteres, o que por sua vez pode levar a uma insuficiência renal. E vale ressaltar mais uma vez: a menopausa não cura a endometriose. O que acontece é que os hormônios estão mais baixos nessa fase.

Caroline Salazar: Com sua experiência, qual o melhor tratamento para eliminar a endometriose e devolver à portadora a qualidade de vida que ela tinha antes de começar a ter sintomas que alteram sua rotina?

Doutor Tomyo Arazawa: O melhor tratamento depende novamente das prioridades, objetivos e expectativas de cada paciente. Muitas mulheres com endometriose ficam muito bem com métodos hormonais, mesmo por longos períodos. Para cada modalidade de tratamento precisamos avaliar quais os potenciais riscos e benefícios para os objetivos da paciente. Para a maioria das pacientes as medicações acabam sendo a primeira linha de tratamento. Para outras, principalmente para aquelas com quadros dolorosos muito intensos, endometriose muito avançada e com infertilidade, o tratamento cirúrgico é provavelmente o melhor tratamento. Isso porque ainda é a única forma de realmente retirar as lesões, o que traz benefícios de longo prazo para controle das dores, melhora da fertilidade e qualidade de vida. Mas contanto que a cirurgia seja feita da forma adequada.

Caroline Salazar: Quando a paciente entra no seu consultório, e o doutor conclui que ela precisa ser operada, quais os cuidados que geralmente tem na informação sobre o quadro clínico e a preparação emocional da portadora?

Doutor Tomyo Arazawa: Muitas das mulheres portadoras de endometriose que precisam ser operadas já passaram por muita coisa antes de chegar ao meu consultório. Até por todo sofrimento com a dor, ineficiência dos métodos hormonais para o caso dela, ou por infertilidade. Muitas ouvem que a cirurgia é de risco, e que para tratar a endometriose precisa tirar “tudo”, mesmo quando o objetivo é a fertilidade. Isso cria uma barreira emocional muito grande para elas. De fato a cirurgia para endometriose é uma cirurgia atípica, e que pode ser extremamente complexa. Mas com uma equipe cirúrgica bem preparada, e uma avaliação pré-operatória bem feita, esses riscos são reduzidos ao mínimo. Com isso o risco de complicações torna-se extremamente baixo. Para qualquer cirurgia, seja ela simples ou complexa, é preciso ter uma sintonia muito grande entre a equipe médica e a paciente. Além de confortável com a decisão, a paciente precisa estar muito segura. Estar ciente de todas as possibilidades, riscos e benefícios. Essa conversa aberta e transparente é fundamental na relação entre o médico e a paciente.

Caroline Salazar: A excisão cirúrgica com remoção máxima da doença que, em muitos casos, promove a cura da endometriose, não é tão difundida nas universidades. Como surgiu o interesse do doutor para essa linha cirúrgica?

Doutor Tomyo Arazawa: Sempre gostei muito de procedimentos cirúrgicos, desde a faculdade. Ter o conhecimento e a habilidade para oferecer uma melhora ou cura através de suas mãos é uma experiência única e recompensadora. Sou uma pessoa com perfil perfeccionista, talvez até pelas minhas origens. E encontrei na cirurgia para endometriose avançada uma forma de conseguir oferecer para a paciente minhas melhores habilidades e conhecimentos em prol da sua saúde. Meu interesse despertou ao acompanhar congressos com cirurgiões renomados mundialmente operando de forma primorosa e elegante, retirando todas as lesões de endometriose. Coisa que na época nem sabia que era possível, ou mesmo necessário. Após cursos no exterior de anatomia cirúrgica avançada e maior conhecimento sobre a doença, tanto dos aspectos cirúrgicos quanto clínicos, consegui me capacitar para ajudar essas pacientes.

Caroline Salazar:  O A Endometriose e Eu é o blog pioneiro em difundir os conceitos e as ideias lançadas há quase quatro décadas pelo médico americano doutor David Redwine, como a excisão com remoção máxima da doença, e a possibilidade de a endometriose não ser causada pela menstruação retrógrada. Como o doutor tomou conhecimento do doutor Redwine e seus ensinamentos?

Doutor Tomyo Arazawa: Conheci o Dr David Redwine em um congresso que participei em um hospital em São Paulo, em que ele foi um dos convidados internacionais. Confesso que após esse evento meus conceitos sobre a doença e o tratamento cirúrgico mudaram completamente. Acredito que foi a partir daí que me mergulhei de cabeça nos meus estudos e aprimoramentos no tratamento da endometriose e dor pélvica. Quanto às teorias da origem da endometriose ainda é um tema muito controverso! Acredito que não tenha apenas uma explicação, já que a endometriose tem apresentações muito diversas. Mas fato é que algumas, como a proposta pelo doutor Redwine (Mulleriose) é uma das que fazem muito sentido pra mim.

Caroline Salazar: Numa conversa com o doutor Redwine, ele me disse que apenas levou o conceito básico da medicina, a excisão, para a endometriose. A partir daí, ele começou a curar suas pacientes e falou, pela primeira vez, em cura da endometriose, algo que, até então, não se falava. A seu ver o que esse pioneirismo do doutor Redwine traz às portadoras e aos médicos?

Doutor Tomyo Arazawa: O conceito da excisão completa vem da oncologia. Para caso de tumores malignos em que a cirurgia é o melhor tratamento (como é na maioria dos casos), a doença precisa ser retirada por completo com margens cirúrgicas livres da doença. Mas ainda assim, existem tratamentos complementares como radio e quimioterapia para ajudar a controlar a doença. Quando falamos de endometriose, por ser considerada uma doença benigna esse conceito não necessariamente é considerado, visto que muitas cirurgias excisionais mais radicais tem um potencial maior de complicações. Mas fato é que a excisão das lesões de endometriose oferece uma melhora muito mais duradoura às pacientes, e muito mais significativa. Aquelas que não fizeram esse tipo de cirurgia têm risco muito maior de recorrência dos sintomas, por persistência da doença. E no caso da endometriose não há quimioterapia nem radioterapia para complementar o tratamento. Por isso certamente o pioneirismo do Dr Redwine ajudou, e está ajudando a mudar o rumo dos tratamentos de pacientes com endometriose, com o conceito da excisão completa das lesões.

Caroline Salazar: Muitas mulheres são mutiladas numa cirurgia de endometriose e ainda continua com a doença. Como o doutor vê essa mutilação e como promover a preservação da capacidade reprodutiva da mulher?

Doutor Tomyo Arazawa: A cirurgia para endometriose avançada, especialmente a grau IV, é uma das cirurgias mais complexas e desafiadoras tecnicamente para qualquer cirurgião pélvico. Isso porque geralmente a anatomia está totalmente alterada, e isso acaba prolongando muito uma cirurgia, que pode durar muitas horas. Existem barreiras técnicas muito grandes para que todas as pacientes submetidas à cirurgia de endometriose sejam submetidas à cirurgia excisional com sucesso. Uma delas é a curva de aprendizado muito longa para os cirurgiões. Tanto pela habilidade cirúrgica por laparoscopia, quanto por um profundo conhecimento da anatomia pélvica. Outra é o alto custo associado a cirurgias laparoscópicas avançadas, que exige equipamentos em ótimos estado de conservação e manutenção. São poucos os hospitais no Brasil que dispõe de recursos financeiros e estruturais para essas cirurgias. Por isso que, por enquanto, essas cirurgias precisam ser realizados em centros especializados, com profissionais igualmente especializados, com conhecimento profundo não em cirurgias avançadas, mas também em anatomia e medicina reprodutiva.

Caroline Salazar: Existe um enorme impacto para o casal e para a família quando a mulher é acometida por essa doença. Qual a importância que o doutor atribui à participação do (a) parceiro (a) nessa terrível jornada que é a endometriose?

Doutor Tomyo Arazawa: O papel do parceiro ou parceira, ou de qualquer membro da família e amigos é fundamental para a paciente com endometriose. O lado emocional dessas pacientes é atingido com tudo, por isso a alta prevalência de ansiedade e depressão. Palavras e atos de apoio e encorajamento são importantíssimos para reduzir a sensação de vulnerabilidade e incapacidade geradas pela doença e pelas dores. Muitas se veem incompreendidas pelos colegas de trabalho, de estudo ou mesmo por profissionais da área da saúde. Por isso esse apoio é tão importante.

Caroline Salazar: Vários cirurgiões falam que a cirurgia pélvica para endometriose é uma das mais complexa que pode ser realizada no corpo humano. O doutor concorda com esta afirmação? Se sim, poderia explicar por quê?

Doutor Tomyo Arazawa: Difícil afirmar que é a mais difícil de todo corpo humano. Mas certamente é uma das mais complexas da pelve e do abdômen. Isso porque a endometriose pode causar diversas alterações anatômicas, como aderências entre múltiplos órgãos, invadir diversas estruturas, entre bexiga, intestino, ureter, nervos pélvicos e até diafragma. E cada caso é um caso. Temos uma ideia do que iremos enfrentar com uma boa avaliação pré-operatória, mas na cirurgia podemos encontrar endometriose em outros locais em que não era previsto. Com isso a cirurgia para endometriose é muitas vezes multidisciplinar: exige a presença de um cirurgião de outra especialidade, dependendo do caso. A cirurgia também pode ser muito longa, de até 8 a 10 horas. O que acaba sendo desafiador para toda equipe, pois não é fácil se manter concentrado durante todo esse tempo, de pé, sem comer, beber ou ir ao banheiro. Com tantos desafios e barreiras, dá para entender porque muitos colegas optam por não fazer cirurgias tão complexas!
Caroline Salazar: Por ser uma doença que não é visível exteriormente, muitas pessoas não acreditam no sofrimento das portadoras. Muitas vezes somos xingadas de toxicodependentes quando pedimos analgésico forte, ou de folgadas porque não conseguimos levantar da cama para fazer tarefa doméstica ou ir trabalhar. Isso gera muita frustração e desgosto. Há alguns anos as redes sociais estão sendo utilizadas para dar apoio e informação às portadoras. Enquanto cirurgião é importante que elas tenham essas âncoras emocionais?

Doutor Tomyo Arazawa: Os grupos de apoio já se mostraram muito eficientes não só para pacientes com endometriose, mas para muitas e muitas doenças de difícil apoio social, até por incompreensão da sociedade. Nesses grupos, as pacientes se conectam, apoiam e são apoiadas por muitas outras mulheres que vivem dramas semelhantes. Isso é muito favorável para fortalecer a resiliência e a esperança na melhora. Além disso, é uma ótima forma de passar informações qualificadas para todos. A única ressalva que deixaria é para que esses espaços de troca de experiências não seja utilizada como ferramenta de autodiagnóstico e automedicação, pois nem sempre um tratamento que funcionou e é bom para uma paciente, vai ser bom também para outra! Usado de forma responsável as mídias sociais são excelentes ferramentas para conectar pessoas com necessidades semelhantes!

Caroline Salazar: Infelizmente a endometriose ainda é uma doença incompreendida, inclusive, para alguns profissionais de saúde. Há quem duvide do grau da dor, só porque aquela mulher não tem um implante profundo de endometriose. O que o doutor diz para aqueles que duvidam dessa dor?

Doutor Tomyo Arazawa: Dor é uma percepção do nosso cérebro, que é influenciado não só por estímulos dolorosos de uma lesão de endometriose, mas também por diversos outros fatores neurológicos, fisiológicos e psico-sociais. Por isso algumas pacientes com poucas lesões podem sentir mais dor que outras que tem muitas lesões profundas. Mas a dor é real. A percepção é real. E a incompreensão ou dúvida acaba sendo mais um fator para a piora da dor dessas pacientes, pois influenciam o fator psico-social da dor.

Caroline Salazar: Muitas mulheres por não terem apoio entram em depressão, outras até tentam tirar suas próprias vidas. Qual a importância do apoio familiar para o sucesso do tratamento?

Doutor Tomyo Arazawa: Todo apoio que a paciente possa receber é bem vindo no acompanhamento e tratamento da endometriose, dor pélvica e infertilidade. A depressão e ansiedade são de fato muito frequentes nessas pacientes. E considerando que a dor é uma experiência tanto sensitiva quanto emocional, estados de depressão vão potencializar a percepção de dor dessa paciente. Por isso que quando há o diagnóstico de depressão ou ansiedade, é fundamental o acompanhamento conjunto por profissionais da saúde mental. Além de melhorar o mal estar da depressão, isso irá impactar também com a melhora parcial da dor. A família é a base de qualquer pessoa, e certamente é da família que deve vir o maior incentivo.  Mas não só a família precisa dar apoio às pacientes com endometriose, mas acredito que toda a família precise de suporte também. Toda a família sofre de alguma forma junto com a paciente. Seja pela sensação de impotência em conseguir ajudar e sanar o sofrimento da esposa, filha ou mãe, seja pelo impacto que isso traz também ao bem estar dessas pessoas. No final, muitas famílias ficam doentes juntas, e não podemos ignorar isso.

Caroline Salazar: Qual seu conselho para os estudantes de medicina que pretendem se especializar em ginecologia/ endometriose?

Doutor Tomyo Arazawa: A ginecologia é uma área extremamente rica dentro da medicina. Não me arrependo nem um pouco de ter escolhido essa especialidade, e se me perguntarem, faria tudo de novo! Todos os médicos ao entrar na faculdade têm como objetivo e missão ajudar outras pessoas, minimizando o sofrimento delas através do seu conhecimento. A endometriose e a dor pélvica são quadros extremamente desafiadores para qualquer profissional. Exige muita dedicação, por muito tempo. Mas todo o esforço é recompensado ao ver que você pode fazer a diferença para pacientes que muitas vezes já tinham perdido a esperança de uma melhora da dor. Que já tinham perdido a esperança de ser mãe. Ou mesmo que já não tinham esperança de ter uma vida “normal”. Se há uma área da ginecologia que precisa de bons profissionais e capacitados, e que vai te guiar para cumprir sua missão desde a hora que escolheu ser médico, é a área de endometriose e dor pélvica. Ao ampliar essa compreensão você deixa de entender só de uma doença e dos seus sintomas. Você passa a compreender melhor as pessoas. Isso fará de você não só um melhor médico, mas um melhor ser humano.

Caroline Salazar: Qual sua opinião sobre a importância de movimentos oriundos da sociedade, como a EndoMarchaMarcha Mundial pela Conscientização da Endometriose?

Doutor Tomyo Arazawa: Esses movimentos são importantíssimos! A endometriose ainda é um problema de saúde pública menosprezado pelo sistema de saúde. Além de consumir recursos financeiros extremamente altos para assistência à saúde dessas mulheres, tira essas pacientes do mercado de trabalho, ou mesmo reduz muito a produtividade das mesmas. Por isso o impacto em toda a sociedade que a endometriose traz é incalculável. Através de movimentos como esse a população e as autoridades serão conscientizados cada vez mais, o que vai levar a uma maior atenção de todos para essa doença!

Caroline Salazar: Como o doutor tomou conhecimento da EndoMarcha 2018?

Doutor Tomyo Arazawa: Fiquei sabendo sobre a EndoMarcha através das mídias sociais! Me chamou a atenção desde o início, e quando vi que já é um movimento internacional me empolgou demais. Minha presença já está confirmada e inscrição feita! Uma em cada dez mulheres tem endometriose. Com certeza você conhece alguém que tenha endometriose e que sofra com essa doença. Vamos ajudar!

Caroline SalazarComo foi participar da EndoMarcha 2018

Doutor Tomyo ArazawaFoi meu primeiro ano (de muitos) de EndoMarcha, e o que me fascinou foi ver e sentir a energia de todas as pessoas engajadas por uma causa em comum. Conversei com pessoas que passaram por tratamentos com sucesso, outras que tinham acabado de operar, histórias de superação e histórias de perdas. Independente da história e resolução, todos estavam ali para conscientizar a população sobre o tema. Foi uma experiência realmente enriquecedora, e que me motivou ainda mais a buscar formas de passar informações a diante e ajudar mais pessoas a encontrar uma melhor qualidade de vida e melhores tratamentos para endometriose.

Caroline SalazarQual a importância da participação de médicos especialistas no movimento?

Doutor Tomyo ArazawaOs médicos especialistas em endometriose têm uma ampla experiência no cuidado com pacientes portadoras dessa doença, e estudam mais a fundo os vários aspectos que ela traz à vida dessas mulheres. Isso é importantíssimo para passar as orientações mais atuais sobre a doença e principalmente os tratamentos, especialmente o tratamento cirúrgico, que além de ser o melhor para muitas pacientes, é o mais complexo também. Isso também ressalta a importância do tratamento cirúrgico ser realizado por médicos especialistas em cirurgias minimamente invasivas avançadas, já que só o total domínio dessa técnica é que permite a excisão de todas as lesões com baixo risco cirúrgico, e com baixas taxas de complicações. 

Caroline Salazar:A seu ver o que falta para o governo federal reconhecer a doença como social para que haja políticas públicas efetivas para as endomulheres brasileiras?

Doutor Tomyo Arazawa: Essa é uma pergunta bem difícil! Acredito que para não só o governo federal, mas todo o sistema de saúde (público e suplementar) passe a dar mais atenção à endometriose, será necessário toda uma mudança em como as informações de saúde são coletadas e interpretadas atualmente. Quando falamos políticas de saúde pública, o bem de toda uma sociedade é levada em consideração, não só a dos pacientes pontualmente. Não tenho dúvidas que impacto social que a endometriose traz é muito maior do que se imagina. É uma doença que acomete mulheres em idade reprodutiva, ou seja, mulheres que estão no seu maior potencial de trabalho. E que por causa da doença não só vão precisar de mais recursos do sistema de saúde, mas também vão contribuir menos para a geração de valor para a sociedade. Se fosse possível mensurar ou estimar o impacto que isso traz para toda a economia, ficaria muito fácil justificar a alocação de recursos para o tratamento da endometriose! Ou seja, o desafio é muito grande! Mas não impossível.

Caroline Salazar: Alguma consideração final que deseja acrescentar?

Doutor Tomyo Arazawa: Vivemos em uma sociedade em que o egocentrismo e o individualismo chegou ao seu extremo. Com sorte a história da humanidade vive em ciclos, e hoje vemos uma tendência a maior compreensão, empatia e compaixão. Todas as coisas que pacientes com dor pélvica crônica, endometriose e qualquer doença debilitante que é imperceptível aos olhos alheios precisam. Recentemente assisti um filme que me marcou muito: “Extraordinário”. Não tem como não se emocionar ou não se identificar com algum dos personagens, ou mesmo o protagonista do filme. A maior mensagem que queria deixar dessa história é: “seja gentil, pois cada pessoa que você encontra está travando uma grande batalha”. Não podemos menosprezar ou diminuir o sofrimento do próximo. Endometriose é “invisível” aos olhos, mas o sofrimento é real.

Sobre o doutor Tomyo Arazawa:

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), doutor Tomyo Arazawa fez sua Residência Médica e especialização em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital das Clínicas da FMUSP. Foi o Preceptor de Ginecologia da FMUSP e se especializou em cirurgias minimamente invasivas (Endoscopia Ginecológica) também no Hospital das Clínicas da FMUSP, tais como cirurgias laparoscópicas, histeroscópicas e cirurgias robóticas.

Tem título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia e em Endoscopia Ginecológica, ambas pela FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). É membro da Sociedade Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (SOGESP), da American Association of Gynecologic Laparoscopists (AAGL) e da International Pelvic Pain Society (IPPS).

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