Retirar o útero cura a endometriose?

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Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta

Desde o último dia 14 de fevereiro não se fala em outra coisa que não seja a história da atriz Lena Dunham. A atriz e criadora de “Girls” não está na mídia por conta da nova temporada do seriado, mas após ter sua história com a endometriose divulgada por ela mesma na Vogue americana. Afinal, Retirar o útero cura a endometriose?

O testemunho da atriz americana de 31 anos ganhou manchetes mundo afora após ela confessar que se submeteu a uma histerectomia (retirada do útero) para se livrar das dores da endometriose

Antes de me dedicar exclusivamente ao A Endometriose e Eu, fui repórter das principais revistas de celebridades, como Caras, Hola! Brasil e Quem, entre outros sites. Na época parecia tabu falar sobre endometriose, seus sintomas e suas consequências.

Eu sabia de uma ou outra atriz que tinha a doença ou que alguma outra teve dificuldade de engravidar, mas ninguém falava abertamente sobre endometriose. Até quando eu comentava do blog, muitos – até mesmo minhas colegas jornalistas – as como se eu fosse um E.T. ou como se eu tivesse uma doença proibida de ser mencionada.

Há pouco tempo, celebridades do Brasil e do exterior começaram a falar que tinham a doença. Ter pessoas famosas falando de endometriose é maravilhoso, e sempre dá um ânimo de que agora a doença passará a ter o reconhecimento que ela merece e é um grande avanço para que a doença e seus sintomas passem a ser mais conhecidos da população. 

Porém, a desinformação persiste.  A falta de informação vem de todos os lados. Inclusive, da pessoa pública que está transmitindo. Foi o que aconteceu com a atriz brasileira Fernanda Machado que engravidou naturalmente após sua bem-sucedida cirurgia.

Gente, desde quando uma mulher com endometriose não consegue engravidar naturalmente? Embora grande parte das portadoras seja acometida de infertilidade, esse sintoma não é inseparável da endometriose. Um mito da doença que precisa ser mudado.

Há quase um século fala-se que a doença surge por conta de pedaços do endométrio que, em vez de descer como menstruação reflui pelas trompas e volta para a cavidade. A teoria de Sampson, mais conhecida como da menstruação retrógrada, foi uma revolução para época.

O único problema é pelo fato de já ter passado quase 100 anos (a teoria é de 1925) e nunca ninguém ter comprovado cientificamente que o endométrio do útero, responsável pela implantação do embrião, é idêntico aos focos de endometriose.

Ao contrário, pesquisas apontam que se tratam de células com certas semelhanças, mas diferentes, sendo possível afirmar que são tecidos endometriais diferentes.

Então, como 99% das pessoas afirmam algo que ainda não foi provado? A desinformação que “culpa o útero” pela origem da doença é a mesma que está mutilando milhares de mulheres mundo afora. Um trágico fim para aquelas que sonham em gestar.

Cada caso é um caso, mas a histerectomia não cura a endometriose. Já falamos muito disso no blog, inclusive na coluna “Com a Palavra, o Especialista” com os nossos médicos parceiros, leia esses dois do doutor David Redwine “Tudo que você precisa saber sobre adenomiose” e “Adenomiose – definição, sintomas, diagnóstico e tratamento”. Não adianta remover o útero e deixar focos da doença no corpo da mulher que, mesmo sem o órgão, os focos continuarão se manifestando.

Afinal, a endometriose ainda é uma doença enigmática, não é mesmo?

Segundo o doutor David Redwine, a histerectomia cura a adenomiose (nota do editor: similar à endometriose, mas que acomete o miométrio, ou seja, na musculatura do útero) não a endometriose. 

Como falado anteriormente, cada caso é um caso. Mas em todas as notícias que li sobre a histerectomia de Lena, em nenhum lugar se mencionou que ela estava com adenomiose, mas sim endometriose.

Estou aproveitando a pipocada do tema, mas esse é um assunto que eu já iria abordar no blog. Em janeiro conversando com o doutor Alysson Zanatta, que edita todos os meus textos autorais desde janeiro de 2016, perguntei quais temas seriam relevantes para eu escrever no blog, e adivinha a resposta?

Ele pediu para eu falar justamente sobre esse assunto: “a histerectomia não cura a endometriose”. Este texto estava previsto para entrar em março, no Mês Mundial de Conscientização da doença, então, apenas o adiantei algumas semanas.

É muito triste ver meninas jovens sem seus órgãos nobres. Eu os chamo há tempos de “órgãos nobres”, pois é graças ao útero e aos ovários que a mulher tem a dádiva de ser mãe.

Porém sei bem que quem sofre com as dores incapacitantes da doença não tem a mínima condição física de cuidar de um bebê. Fato comprovado no meu pós-parto. Estou livre das dores da endometriose há 5 anos e 8 meses, mas mesmo sem dor os primeiros meses do bebê são muito exaustivos. Desde então, passei a chamar essas mulheres de superguerreiras.

Não estamos aqui para julgar ninguém.  A mulher tem o direito de fazer com seu corpo o que ela bem entender, inclusive, retirar o útero, os ovários ou outro órgão prescindível para manutenção da vida.

Mas essa decisão deve ser precedida de conselhos médicos especializados e responsáveis e, principalmente, muita informação adequada e correta, dentre as quais (vale repetir) a de que retirar o útero não cura a endometriose. 

Vale ressaltar também o que várias vezes já repeti aqui no blog: a endometriose tem cura sim! Trata-se da retirada total dos focos por meio da excisão cirúrgica (a cauterização e ou vaporização a laser não retira toda a doença).

É preciso falar mais sobre a endometriose, especialmente na grande mídia, mas as informações precisam ser as mais corretas possíveis. Não dá mais para continuar com a mesma ladainha de quase 100 anos atrás e achar que está tudo bem.

A ignorância precisa acabar e estamos firmes e fortes nesta empreitada. Beijo carinhoso!

Nota do editor: tomamos a liberdade (Caroline e eu) de aproveitar a notícia em destaque da atriz Lena Dunham para abordar o tema histerectomia e endometriose.

Não cabe aqui qualquer comentário direto sobre este caso específico. Apenas o respeito à sua dor e a admiração pela sua coragem em tornar público algo tão íntimo.

Em minha humilde opinião, tudo se explica (decisões e atos terapêuticos) pela teoria da menstruação retrógrada, segundo a qual a endometriose originar-se-ia pelo sangue menstrual refluído pelas trompas, e que então se implantaria nos órgãos.

A menstruação retrógrada é um fato. A implantação deste sangue menstrual nos órgãos é uma anedota, pois, biológica e cientificamente, não foi comprovada.

Mas se acredito que a menstruação causa a endometriose, então naturalmente penso que a histerectomia seja um tratamento efetivo. É dedutível. Entretanto, não é o que observamos em nossa prática diária.

Se necessária, os maiores benefícios da cirurgia acontecem quando a remoção máxima dos focos for realizada. Desafiadora, mas possível. Ao mesmo tempo, deve ser buscada a preservação uterina, de trompas e ovários (órgãos reprodutores internos).

Fonte imagem: Sapo.pt

2 Comentários

  1. Bárbara Rolim Em

    Obrigadaaaaa!
    Esse texto só comprovou que temos de acompanhar o blog (site) diariamente. Troquei de médico recentemente porque eu já tinha 4 cirurgias e ele disse que já não adiantaria mais nada, que eu deveria pensar em retirar “tudo”…

  2. Angelita Spacin Em

    Olá! E no caso de quem já está na menopausa? Mesmo parando de mestruar a endometriose vai continuar? Obrigada.