Como a dor da endometriose afeta o psicológico de uma mulher?

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Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta

Em agosto de 2016 fiz uma enquete na fanpage do blog A Endometriose e Eu pedindo sugestões de temas para meus textos autorais, e um dos mais pedidos foi sobre como a dor da endometriose afeta o psicológico de uma endomulher.

Como portadora da doença que sofreu 21 anos com as dores severas – 18 deles sem saber o que eu tinha – vou falar como é viver 24 horas do dia com dores e como isso afeta nosso psicológico.

Eu vivi assim por muitos e muitos anos e é assim que vivem muitas das 10 milhões de portadoras brasileiras. E que dores são essas?

Elas começam com uma cólica no período menstrual – podem ser como pontadas de facas, agulhadas, cortante, dilacerante – e vai aumentando, aumentando até chegar a tomar conta da nossa vida, mesmo nos dias fora da menstruação.

Com o tempo vão surgindo outras dores, nas pernas, na lombar, até um momento em que tudo no nosso corpo dói. Dói para urinar, para evacuar, para ter relação sexual, ou seja, nossa vida se transforma num pesadelo de dores.

E aí quem tem dor sempre está com um semblante estranho, mais triste, e é aí que as pessoas que convivem conosco começam a perguntar: “Nossa o que você tem que está com esta cara?”.

Quando a mulher ainda não tem o diagnóstico, a gente fala o que: “Estamos com dor”, e como não sabemos de onde vem a dor tem momentos que realmente pensamos que estamos loucas. “Não é possível que só eu tenho essas dores”.

Tendo ou não tendo o diagnóstico as portadoras são rotuladas como aquela que ‘está sempre com dores’, ‘é fraca ao ponto de não aguentar uma cólica’, ‘é preguiçosa porque não ajuda nos afazeres domésticos ou não estuda’, dentre muitos outros.

Se viver diariamente com dor não é fácil, imagine como é viver com dores + julgamentos e xingamentos. Não é nem um pouco fácil. Não pensam que dentro de cada mulher que sofre existe um sentimento, um ser humano que está doente.

Como fica o nosso psicológico, o nosso estado emocional sem ter nenhum acolhimento? Péssimo! E péssimo em vários sentidos, pois quem julga, rotula, geralmente, não sabe o que é viver com dores diárias incapacitantes.

Como a maioria das pessoas ainda acha que a endometriose vem da menstruação, aquela que tem dores mesmo fora do período ou toma pílula contínua e, mesmo assim, continua com muitas dores, recebe desprezo e xingamentos na maior parte dos dias.

Acham que a doença é frescura e, em pleno século 21, ainda temos de escutar baboseiras do tipo: “Engravida que passa”, Quando casar melhora”, “Mulher tem de sofrer mesmo”, “Sua dor é psicológica”…

O pior é que essas frases vêm de amigos, familiares e até médicos. Quem devia nos dar apoio, muitas vezes, é quem nos põe ainda mais para baixo.

Sentir dores diariamente e não ter apoio, não ser acolhida levam muitas à depressão. A incompreensão das pessoas também empurra a endomulher para o abismo da depressão, sei bem o que é isso.  

A endometriose é uma doença que afeta a mulher num todo. Muitas vezes não conseguimos levantar da cama. Ter dores por todo o corpo afeta não apenas nossa qualidade de vida, mas nos deixa muito nervosa, irritada e impaciente.

Rotulam e mistificam a doença sem pensar no agravante que isso impõe às suas portadoras. Já escutei a frase: “É difícil tratar uma portadora de endometriose porque elas são loucas”.

Confesso que sempre achei péssima essa frase, e hoje curada, eu a rebato: “Não, não é a portadora que é louca, mas são os sintomas, especialmente, as dores que nos deixam loucas”.

Quem não ficaria louca sentindo dores 24h por dia, 7 dias por semana e ouvindo que não tem nada?

Apesar do desabafo, sabemos que doenças psiquiátricas não são loucuras e que demandam atenção e tratamento adequado. 

Se as mulheres de endometriose recebessem diagnóstico precoce e tratamento adequado, se não todas, a maioria não apresentaria problemas psicológicos e psiquiátricos.

Mais difícil que a cura da endometriose, que é possível com a cirurgia completa, é se curar dos traumas e danos psicológicos.

Só quem já viveu os dois lados da doença – dores incapacitantes diárias e cura – sabe o que estou falando. Eu também era taxada de doida, e hoje provo totalmente o contrário.

Muitas endomulheres não conseguem ter sua vida profissional, muito menos a pessoal e isso é muito grave. Quando passei por isso, muitas perguntas vinham à minha cabeça:

“Quem quer viver numa cama? Quem não quer trabalhar? Quem não quer estudar? Quem não quer namorar? Quem não quer sair com os amigos? Quem não quer aproveitar a vida?”

São coisas comuns do dia a dia de qualquer pessoa, que são roubadas pela endometriose. Tudo isso mexe muito com nossa cabeça, muitas chegam a ficar até sem ânimo para viver.

Muitas chegam a cometer algo contra sua própria vida. E isso é muito grave! É uma fase difícil e precisamos ser muito fortes para superar, mas acredite: você irá superar assim como superei.

Em primeiro lugar acredite no que você sente e busque ajuda especializada. Não ouça terceiros, deixe-os falar sozinhos, mas se escutar não alimente isso dentro de você.

Sim, você tem um problema muito sério e o mais importante é você ter certeza que está sendo bem acompanhada, principalmente, se precisar realizar cirurgia.

É importante saber se seu cirurgião faz a cirurgia completa (excisão + reconhecimento total dos focos), pois se a cirurgia for a incompleta ou se ficar algum foco no seu corpo, a doença continuará e possivelmente você continuará com dor.

Você precisa estudar a doença para ir em busca do tratamento mais efetivo para restabelecer sua qualidade de vida. Retirar os ovários e o útero não curam a doença. Se você tiver endometrioma, saiba que também terá algum foco profundo na pelve e ou abdômen. 

Não tenha vergonha de procurar também ajuda profissional de psicólogo e psiquiatra. Da mesma forma que as pessoas não compreendem a endometriose, não compreendem outras doenças.

Porém, precisamos ser as primeiras a transpor barreiras e buscar ajuda para viver bem.

As cirurgias de repetições afetam muito o psicológico e autoestima das endomulheres que vivem com dores. A cada novo procedimento, mais dores, menos esperança de verem uma luz no fim do túnel.

O meio estressante o qual uma endomulher vive também influência e muito na intensidade das dores. Por isso sempre que possível procure fazer algo que lhe dê prazer. 

Procure espairecer, mesmo que seja sozinha. Eu saía muito para caminhar sozinha, principalmente, quando vivia momentos de tensão, seja de dor ou de incompreensão das pessoas.

Foi nessa época que realmente aprendi a viver comigo mesma, que a minha companhia me bastava. Comigo e com Deus, pois saiba que Ele nunca nos desampara e que está conosco.

Sei que não é fácil viver com dores incapacitantes, postergar planos, ter um corpo inchado por conta das altas doses de medicamentos para conter as dores e ainda ter que manter mente sã quando estamos diante da dor e da ignorância humana.

Não é fácil viver e conviver com as dores da endometriose. Eu sei disso, mas se eu consegui vencer você também vai conseguir também. Eu confio e acredito em você!

Cada endometriose é de um jeito, cada organismo reage de um jeito, mas você tem de ser forte para reagir sobre a sua vida, ir em busca do seu tratamento correto e nunca perder a fé.

Quem convive com as dores diárias da endometriose enfrenta uma guerra por dia. Sei que somos guerreiras por natureza, por isso não deixe nada te esmorecer, pois o fim da batalha existe.

E se você convive com uma endomulher, tente ser mais compreensivo. Não precisa falar nada, não precisa entender e não queremos que ninguém sinta o que passamos, nem nossos piores inimigos. Estar junto, mostrar que se importa e que acredita é tudo que queremos e precisamos. Beijo carinhoso!! 

Fonte imagem: Deposit Photos/ Caroline Salazar

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