As consequências do rótulo “doença mulher moderna” às endomulheres!

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Por Caroline Salazar

Um dos rótulos mais propagados da endometriose é que ela é a ‘doença é da mulher moderna’. Confesso que eu mesma já reproduzi muito essa frase sem pensar na consequência por trás dela.

Sim, você leu bem: consequência. Somente depois que comecei a estudar a endometriose do ponto de vista científico foi que me dei conta como há preconceito e culpabilização da mulher quando relaciona a doença à vida moderna.

Há muitos pontos neste contexto que não batem. É um erro grave relacionar a gestação tardia à doença.

Quando fala que a mulher tem endometriose porque postergou a gravidez dá a entender que ela só tem a doença porque não engravidou mais jovem.

Porém, é sabido que a gravidez não cura a endometriose. Já falamos sobre isso no A Endometriose e Eu no texto “A gravidez cura a endometriose?” 

Pelo fato de menstruar menos e engravidar mais, os sintomas da endometriose não são amenizados. Se ainda hoje a cólica forte é tida como chilique e frescura da mulher, já pensou como as mulheres com dores menstruais da época de nossas avós eram tratadas?

E o que dizer das adolescentes com endometriose? Também já abordamos o assunto na coluna do doutor David Redwine no texto “Endometriose em adolescentes?” Eu mesma sinto muitas dores desde minha menarca, aos 13 anos.

Já falamos aqui no A Endometriose e Eu que a menina mais jovem relatada na literatura científica diagnosticada com endometriose tinha 10 anos e meio. Que modernidade ela tem?

Quantas endoamigas você conhece (se não você mesma) que começaram a menstruar com 9, 10 ou 11 anos e já tinham os sintomas?

Dá pra culpar uma criança pela doença na primeira menstruação e dizer que foi o adiamento da gravidez?

A endometriose não é uma doença desencadeada por conta da vida moderna. É uma doença antiga, ela sempre existiu, mas nos primórdios da civilização ainda não tinha nome.

Você sabia que desde a era Egípcia há relatos de mulheres com períodos menstruais dolorosos?

Há relatos desses sintomas que poderiam ser de endometriose muito antes do nascimento de Cristo, descritos nos Papiros de Kahun (também conhecidos como os Papiros de Lahun), que são documentos oficiais escritos pelos sacerdotes e nobres egípcios sob a forma de hieróglifo (sinais e gravuras) em 1825 aC.

Também foram encontrados documentos históricos indianos datados de 800 aC, nos quais os médicos da época responsabilizavam, ou seja, ‘culpavam’ as pacientes com dor pélvica pelo surgimento da doença, condenando o seu estilo de vida por causa de uma enfermidade da qual elas não possuíam o controle.

Quando rotulam a endometriose como “a doença da mulher moderna”, estão culpando a mulher por ela ter uma grave enfermidade. É como se ela tivesse endometriose por querer ou não melhorasse porque não quer, entendem?

O mito ‘a doença da mulher moderna’, muitas vezes, vem acompanhadas de explicações, que nada mais são que falácias, do tipo “é a alimentação”, “é um desequilíbrio hormonal”, “é o emocional desequilibrado”, “é psicológico”, “é falta de fé”, “é problema com a mãe”, entre outros.

Claro que é muito mais fácil colocar a culpa na mulher do que solucionar o problema, é o famoso “Blame the patient”, “Culpe o paciente!”.

Claro que os médicos e outros profissionais não fazem isso de modo proposital ou consciente, mas, ao nos culparem, fecham a porta para buscar um tratamento adequado e efetivo.

É por isso que, após mais de 100 anos, mesmo sem provas científicas, a teoria da menstruação retrógrada ainda permanece sendo tão aceita.

É muito fácil dizer que nosso organismo ou de qualquer outra forma nós mesmas causamos a doença, ao invés de responder pelo resultado um tratamento.

Com todo o respeito, quando um médico diz que “a doença sempre volta” porque “vem da menstruação retrógrada” está dizendo “não me responsabilizo pelo meu trabalho.

Da mesma forma, quando diz que ‘a endometriose é a doença da mulher moderna’ também está dizendo que nunca ficaremos boas, afinal, uma minoria, hoje em dia, terá mais do que 4 filhos.

Não podemos aceitar que, em pleno século 21, nos culpem por ter uma doença tão cruel como a endometriose.

Culpar a mulher por ter endometriose porque ela optou por estudar e seguir carreira, além de discriminação é preconceito, pois quem disse que a mulher é obrigada a ter filhos? Quem?

Muitas não querem e elas serão culpadas por ter endometriose? A mulher tem direito de fazer com seu corpo o que ela bem entender.

É preciso dar um basta neste rótulo! Continuar propagando esse estigma contribui ainda mais para o atraso no diagnóstico e, consequentemente, no tratamento.

Precisamos que parem de nos culpar e passem a estudar a doença do ponto de vista científico. Precisamos que olhem para a endometriose para além da teoria da menstruação retrógrada!

Não precisamos de rótulos para nos descrever. Precisamos de mais apoio, mais compreensão, mais carinho. Precisamos de mais amor e menos julgamentos. Beijo carinhoso!

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