A história da leitora Chiara Viscomi, sua endometriose profunda e sua gestação natural!

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Desde 2012, quando conheci o cientista doutor David Redwine, passamos a falar no A Endometriose e Eu sobre a diferença entre as cirurgias de excisão e de cauterização, e também sobre a real cura da endometriose, possível apenas com a remoção total dos focos mediante a excisão cirúrgica.

A coluna “História das Leitoras” deste mês comprova com o relato da paulistana Chiara Lenci Viscomi, que apesar de eu ser a única ativista curada e que tem este discurso, a endometriose tem cura sim.

Além como obteve esse êxito, a partir da história de Chiara vamos conhecer um pouco da história de seu pai, Francesco Antonio Viscomi, precursor da laparoscopia ginecológica no Brasil, que apesar de ter partido jovem, seu pioneirismo ainda faz a diferença na vida de milhares de mulheres brasileiras.

Apesar do pioneirismo do pai, ela só descobriu sua endometriose, que provocava sua infertilidade, após o falecimento dele. Porém, graças a seu legado, ela encontrou um cirurgião apto a operá-la com a técnica que realmente retira toda a doença.

Pouco menos de um ano de cirurgia, Chiara já segurava sua Angelina em seus braços. Mais uma história de fé e esperança às endomulheres que não conseguem engravidar por conta da endometriose, e para aquelas que acham que a doença não tem solução. Beijo carinhoso! Caroline Salazar.

“Meu nome é Chiara Lenci Viscomi, tenho 34 anos, casada com Marcelo Lima, 35 anos, administrador, e mãe da Angelina, 1 ano e 7 meses”.

Nasci em São Paulo, capital, me formei em comunicação, hoje sou acadêmica do 4º ano de psicologia com iniciação científica nos aspectos psicológicos da endometriose, educadora parental em disciplina positiva pela Positive Discipline Association.

Eu convivi com sintomas da endometriose por 17 anos, entre o começo dos sintomas e o diagnóstico. Os sintomas quase insuportáveis começaram nove anos antes do diagnóstico. Durante este período eu optei por usar anticoncepcionais contínuos e DIU, que foram as soluções para não sofrer tanto, isso durante sete anos.

A partir do meu diagnóstico comecei a buscar na internet informações sobre a conscientização da doença e assim descobri a EndoMarcha (acesse a coluna e saiba mais sobre a EndoMarcha Time Brasil) que aconteceria em março daquele ano. 

O nascimento de Angelina em fevereiro de 2017, menos de um ano após sua cirurgia

Claro que eu já queria participar, mas no dia eu estava me recuperando da cirurgia que me curou. Prometi para mim mesma que iria no ano seguinte apoiar essa causa tão importante e tão bem representada pela Caroline, mas minha filha nasceu no final de fevereiro, e em março de 2017 eu estava em casa somente dedicada a ela. 

Finalmente em 2018 eu pude ir e fiz questão de levar Angelina em meus braços para que fizesse todo o percurso comigo! Serei eternamente grata aos médicos que me cuidaram com tanto carinho, a minha família que foi essencial ao meu lado e a Caroline, que com seu trabalho auxilia milhares de mulheres a se conscientizarem sobre a doença e sua cura. 

Chiara e a filha, Angelina, 1 ano e 7 meses, na EndoMarcha São Paulo 2018

Nascida e criada em uma família de médicos, estudando a fundo sobre a endometriose, afirmo com segurança que é preciso ter muita coragem e conhecimento para defender a existência da cura desta doença tão enigmática.

Minha admiração pelos profissionais que fazem isso e meu orgulho de ser prova viva que a doença tem cura e de abraçar esta causa! Eu sou mais uma endomulher brasileira curada da endometriose.

Não vi outro formato de contar a minha história, senão o formato de uma carta aberta, direcionada a ela mesma: minha endometriose.

Minha querida endometriose,

Desde que me conheço por gente, você estava lá presente em minha vida.

Era cotidianamente presente no vocabulário do meu pai, o doutor Francesco Antonio Viscomi (para sempre em nossos corações), que estudava suas origens, sua forma e seu tratamento ainda nos anos 1980.

Ele foi um visionário, quando você ainda era pouco conhecida aqui nas terras de palmeiras e sabiás. 

Chiara e o pai, Francesco Antonio Viscomi, precursor da laparoscopia ginecológica no Brasil

Ainda quando eu era criança, ele não se contentava com o que sabia, e como um bom médico estudioso cruzou os mares para trazer de volta, com o pioneirismo que lhe era característico, o que existia de mais novo e respeitoso para as mulheres que sofriam com você.

Assim, eu cresci conhecendo o nome endometriose e admirando a forma como meu pai a tratava, apesar de desconhecer toda a sua peculiaridade e seu poder.

Em 1997, aos 13 anos de idade, tive minha menarca e, logo nos anos seguintes, comecei a sofrer com fortes cólicas e longos períodos menstruais.

Mais tarde começaram as dores para evacuar durante a menstruação, e muito provavelmente já era você dando seu sinal.

Nesta época, seu diagnóstico em adolescente era quase impensável e sua origem era conhecida pela menstruação retrógrada.

Os anos se passaram entre cartelas de pílulas, analgésicos e a crença de ter dado azar ao ser uma das mulheres fadadas a sentir fortes cólicas.

Convencida de que tudo aquilo que eu sentia teria de ter uma fonte real, e o que mais me incomodava era o funcionamento intestinal, por volta dos meus 18 anos fui diagnosticada com Síndrome do Intestino Irritável (SII).

Mais alguns anos se passaram e você, Endometriose, provavelmente continuava a progredir dentro do meu corpo silenciosamente…

Em uma das muitas matérias que meu pai escreveu sobre você, e eu com um pouco mais de maturidade, logo me identifiquei com os sintomas descritos.

A minha pergunta para ele, em tom afirmativo, foi: “Será que eu tenho isso? Se eu tiver, você me operaria ou seria outra pessoa?” Ele me respondeu que preferia nem pensar.

Isso porque no fundo sabíamos que àquela época ele seria o melhor profissional para fazer isso.

Era melhor e mais fácil para todos nós, então, manter a sua presença só nos livros que ocupavam as estantes de casa e nos vídeos que passavam na nossa TV quase que com a mesma frequência de uma programação da televisão aberta.

Entre emendas de cartelas de pílulas e com o indicador baixo no exame de sangue (CA125), os sinais da doença foram camuflados por mais alguns anos.

Quando eu permiti que os sintomas voltassem, você voltou a ser tema nas conversas com o meu pai. Então, decidimos que o mais prudente seria descartar a hipótese de que você estava morando dentro de mim.

Mas foi neste meio tempo que eu descobri que era verdade que as pessoas que mais importam nas nossas vidas são tomadas de nós muito depressa.

Por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pois nunca se sabe quando será o último encontro entre nós.

E, assim, em agosto de 2006, meu pai deixou este mundo, marcando a história da medicina, a história da ginecologia no Brasil, a história de muitas mulheres e, também, a da nossa família.

Agora, sem ele ao meu lado, a possibilidade de você fazer parte de mim era ainda mais assustadora, e quando a encarei de frente o primeiro diagnostico foi negativo.

Mas o que fazer com os sintomas que acabavam comigo mês a mês?

Minha escolha foi colocar um DIU hormonal para não menstruar. Cinco anos se passaram e decidi tirar o DIU por causa do vencimento e também porque pretendia engravidar.

Os primeiros 3 meses foram de dores avassaladoras e, é claro, sem gravidez. Há quem acredite até hoje que o uso desses ou de outros medicamentos que levam à ausência da menstruação protegem a mulher contra a endometriose. Doce ilusão.

Eu tive sorte, muita sorte. A sementinha que meu pai plantou foi crescendo, a medicina foi evoluindo e eu caí nas mãos certas.

Lembro-me como se fosse hoje o doutor Waldir Inácio Jr. me encaminhando à uma especialista para fazer o ultrassom com protocolo para endometriose para confirmar a doença, após uma consulta clínica tão detalhada, com perguntas que eu nunca tinha imaginado ouvir em uma consulta ginecológica.

Primeira grande lição: o diagnóstico correto começa em uma escuta ativa e livre de crenças estabelecidas pela história e pela cultura em que vivemos.

Com o ultrassom específico em 2016 veio o diagnóstico certeiro: endometriose. Aos 32 anos, uma endometriose profunda, com comprometimento intestinal.

O meu sentimento? Um alívio tremendo de ter uma resposta para um sofrimento de anos, uma angústia por não ter o meu pai fisicamente ao meu lado, a gratidão pela certeza de estar nas melhores mãos e de ter um companheiro e uma família toda ao meu lado.

Com toda a dedicação, o doutor Waldir e o doutor Ricardo Pereira me explicaram como os conhecimentos sobre a doença haviam mudado – da época do meu pai até agora – ao longo dos anos, as novas teorias, o tratamento, e a certeza que eu tinha uma doença que sim, tem cura.

E foi no dia 05 de março de 2016 que, depois de mais de 8 horas de cirurgia, eu me vi completamente livre de você. 

A paulistana exibe orgulhosa sua gestação, que só foi possível após a cirurgia para endometriose

Chiara exibe o barrigão orgulhosa

O dia 05 de março sempre foi um dia especial para mim, era o aniversário do meu pai, e a data foi coincidentemente escolhida pela disponibilidade da equipe médica. Para mim foi um sinal de que meu pai estava mesmo ao meu lado nesta batalha.

Foram 3 meses de abstinência, menstruações sem qualquer tipo de dor e uma gravidez natural na primeira tentativa. Uma qualidade de vida que eu já desconhecia.

Minha querida endometriose, eu não podia tratar você diferente, porque com você eu cresci, vi meu pai crescer, senti na pele o que tantas mulheres sentem e me comprometi a estudar e entender o que faz de você uma doença tão enigmática.

Hoje, na minha segunda graduação, me dedico a estudar os aspectos psicológicos que envolvem as mulheres que sofrem com você, e a pensar em como posso minimizar o sofrimento de cada uma delas.

P.S.: Como você não foi vista no primeiro exame? Provavelmente o foco era muito pequeno para ser diagnosticado, mas o suficiente para me causar dor. Em poucos anos você se espalhou rapidamente pelo meu corpo, de forma ainda mais silenciosa com o uso do DIU medicamentoso.

Como meu CA125 (indicador sanguíneo) nunca deu alterado? Enigma. (nota da editora: segundo o doutor David Redwine, como o próprio nome diz CA significa câncer e é marcador tumoral, ou seja, foi criado para marcar alguns cânceres ginecológicos, mas como não é específico para endometriose, nem sempre dá alterado).

Eterno amor e gratidão ao meu pai, Francesco Viscomi, que deu início a uma longa jornada. Com ele, o doutor Ricardo fez um dos seus primeiros cursos e o doutor Waldir pôde acompanhar seus conhecimentos e sua humildade.

Chiara com o marido, Marcelo Lima, e a cadela, Yoko

Orgulho, admiração e gratidão por todos que nos cuidaram com tanto respeito e dedicação. Beijo carinhoso, na esperança de que todas as mulheres que sofrem por você possam ter um diagnóstico e tratamento corretos!

Estarei todos os anos na EndoMarcha (acesse a fanpage e saiba mais) e convido todos a participarem e lutarem por essa causa!

A endometriose tem cura, sim! Acredito que a cirurgia proporciona esta cura, mas é importante ter a certeza que o cirurgião é especializado em excisão, na retirada de todos os focos da doença, preservando ao máximo os nossos órgãos afetados pela doença. Beijo carinho, Chiara!”

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