A história da leitora Marina Heckmann e sua endometriose profunda: da cura à sua gestação natural!

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Uma das missões do meu trabalho é levar esperança e fé para milhares de pessoas que sofrem com a endometriose. É mostrar o caminho rumo à solução. Por isso você sabe que adoro contar histórias de quem superou a endometriose. E neste “Março Amarelo” não seria diferente. 

A história da leitora Marina Heckmann Bove prova que após décadas o sofrimento pode ter fim, que a cura da endometriose existe, que a endometriose profunda pode dificultar a gravidez, alerta sobre as consequências de procrastinar algo inevitável e comprova a importância de se empoderar com as informações corretas para decidir o melhor caminho para o tratamento efetivo.

A paulistana de 36 anos demorou 17 anos para ter o diagnóstico e 23 para tratar sua endometriose efetivamente. A história de Marina mostra o desconhecimento e negligência médica em relação aos sintomas da endometriose, pois desde seus 17 anos – 5 anos após o início dos sintomas – ela mesma suspeitou da doença, após suspeita de uma amiga – olha a importância de falar sobre a endometriose!

Porém, o diagnóstico só chegou 7 anos após esse episódio, aos 24 anos, 12 anos após os primeiros sintomas, devido à falta de escuta de sua médica da época. Sem muitas informações, Marina escolheu o tratamento que achava mais adequado, sem saber que estava tratando apenas os sintomas, não a doença.

O relato de Marina também nos traz reflexões sobre ser dona de suas próprias decisões, mesmo quando lá no fundo sabemos que estamos procrastinando a solução do problema, e mostra que quando temos a informação correta não aceitamos qualquer outra coisa que não seja a excelência.

Após mais de 8 anos adiando o tratamento efetivo, após ter dificuldade para engravidar, ela, finalmente, aceitou a cirurgia e não só conseguiu a cura de sua endometriose profunda, como engravidou naturalmente no primeiro ciclo pós-cirurgia, 45 dias após o procedimento, mesmo com adenomiose, que não foi mexida na cirurgia.

Hoje, ela se arrepende de ter adiado o inevitável, que a fez sofrer 8 anos a mais e acarretou em inúmeros efeitos indesejados, mas acredito que tudo vem no momento certo e o mais importante é a pessoa com endometriose decidir sobre sua saúde, seu corpo e estar empoderada com as informações corretas.

Tenho certeza que esse é mais um testemunho que vai levar fé e esperança a milhares de mulheres em relação à cura da endometriose e que o diagnóstico de endometriose profunda e de adenomiose não são sentença de infertilidade. Obrigada, Marina por dividi-lo conosco. Muita saúde para sua bebê! Beijo carinhoso! Caroline Salazar

 

Marina radiante com o ultrassom de sua filha.

“Meu nome é Marina Heckmann Bove, tenho 36 anos, sou servidora pública, me formei em ciências biológicas, nasci na capital paulista, mas moro há 18 anos em Brasília, no Distrito Federal.

A endometriose se apresentou na minha vida em 11 de julho de 1997, quando eu tinha 12 anos e menstruei pela primeira vez. Nos primeiros dias tive febre e fiquei de cama. Notei a borra de café, mas não fazia ideia de que aquilo era menstruação. A dor e o desconforto eram tão grandes que pensei que estivesse morrendo…

Chamei minha mãe ao banheiro e mostrei a ela minha calcinha. Fiquei em choque quando soube do que se tratava. COMO eu poderia passar por aquilo todo mês? POR QUE ninguém havia me preparado para aquela monstruosidade? POR QUE nunca me disseram que era daquele jeito?

COMO as mulheres conseguiam continuar seguindo com suas vidas normalmente, sendo obrigadas a conviver com aqueles sintomas? POR QUE ninguém falava sobre isso?

Recebi um pacote de absorventes e um chega pra lá, afinal de contas era só a minha primeira menstruação e estava tudo bem, era só uma questão de eu me adaptar, toda mulher enfrenta a mesma coisa.

Passei a adolescência toda sofrendo com um fluxo menstrual intenso e dores incapacitantes. Tinha dificuldades para ficar em pé, para andar, para estudar, para fazer atividade física, para pensar em qualquer outra coisa que não fosse todo aquele mal-estar.

Minha mãe teve de me buscar no colégio, quando vomitei de dor no meio do pátio no recreio. Tinha quedas de pressão e quase desmaiei inúmeras vezes. Parei de trancar a porta do banheiro quando ia tomar banho, depois de um episódio desesperador em que precisei rastejar no chão para destrancá-la para que minha mãe pudesse me acudir.

Fui taxada de fresca, exagerada, hipocondríaca. Todos me diziam que não era para tanto, que sentir dor na menstruação era normal, que todas as mulheres do mundo haviam enfrentado as mesmas coisas e sobreviveram a elas.

Comecei a acreditar que eu realmente devia ser mais sensível à dor do que as outras mulheres. Por causa disso, em muitos momentos me senti mais fraca e menos capaz do que as demais.

Imaginem só o estrago que essa percepção distorcida da realidade é capaz de provocar na cabeça de uma adolescente que já precisa lidar com toda a turbulência hormonal desses anos?!

Aos 15 anos, meu ginecologista prescreveu pílula anticoncepcional com a promessa de que com isso tudo ia melhorar. Honestamente, não percebi diferença. Nem para a intensidade do fluxo e muito menos para as dores.

Mas segui tomando centenas de cartelas dos comprimidos na esperança de que aquele médico sabia o que estava falando, e que em algum momento aquilo passaria.

Além disso, tinha vergonha de não relatar melhora durante as consultas. Se funcionava para as outras, como eu poderia ser capaz de explicar que não estava funcionando para mim? Então menti, com receio de ser taxada novamente de ‘mimimi’ por mais alguém.

Somaram-se às dores os efeitos colaterais dos hormônios. Inchaço, enxaquecas, dor nas mamas. Me entupi de analgésicos e anti-inflamatórios. Muitos não tiveram qualquer efeito.

Outros ajudaram, reduzindo um pouco o nível da dor e assim permitindo que ao menos eu conseguisse ficar em pé e dar conta das minhas obrigações básicas. Mas sempre com dor. Sempre.

A última foto da ‘endobarriga’ de Marina, em sua última menstruação, alguns dias antes da cirurgia em outubro de 2020.

Ouvi que era só fazer atividade física que passava. Que era só sair da adolescência que passava. Que era só casar que passava. Que era só ser mãe que passava. Que era só ser otimista e começar a enxergar o mundo mais colorido que passava.

Aos 17 anos, acostumada às minhas queixas constantes, uma amiga do colégio me perguntou se eu não tinha endometriose. Era a primeira vez que escutava aquele nome. Eu não fazia ideia do que era isso.

Cheguei em casa, liguei o computador e fui pesquisar. Abri um site que relatava vários dos sintomas e, claro, eu tinha grande parte deles. Me senti esperançosa diante da possibilidade de finalmente descobrir o que eu tinha, além de muito aliviada por encontrar uma explicação científica que poderia provar que tudo o que eu sentia era real, e não fruto da minha imaginação ou do meu suposto exagero.

Na próxima consulta com minha ginecologista da época, comentei que eu havia lido sobre endometriose e que achava que era isso o que eu tinha. Ela sorriu e respondeu com um longo “Magiiiiiiiina!”.

Insisti, relatando meus sintomas e perguntei se havia algum exame que eu pudesse fazer para descobrir. Mas ela se limitou a afirmar, com a maior certeza do universo inteiro, que eu não tinha endometriose coisa nenhuma, e que não era para me preocupar com isso.

E eu acreditei, né? Afinal, ela era uma médica especialista em ginecologia, enquanto eu era só… a Marina.

Até hoje me pergunto o que se passa na cabeça de um (a) médico (a) que se acha capaz de diagnosticar alguém simplesmente avaliando a fisionomia da paciente, julgando se ela tem ou não tem cara de determinada doença. Endometriose não carimba testas, minha senhora!

Aos vinte e poucos anos notei uma redução cada vez maior do meu fluxo menstrual. Além disso, o sangue começou a sofrer alterações em sua cor e aspecto: de um vermelho vivo homogêneo, passou a descer marrom-escuro e cheio de coágulos.

Por volta dos 25 anos, conheci uma amiga que já tinha sido diagnosticada com endometriose. Conheci sua longa jornada em busca do diagnóstico, soube das atrocidades médicas que ouviu, acompanhei suas cirurgias, compartilhei de todo o seu sofrimento. Em muitos momentos tive a impressão de estar diante de um espelho, mas tudo ainda estava um pouco turvo para mim.

Hoje sou muito grata por nossas vidas terem se cruzado, pois ela me colocou no caminho da informação correta e dos bons médicos. Aprendi muito sobre endometriose com ela. Dividi minha própria história, e desde o primeiro momento ela me disse que achava que eu tinha endometriose também.

Em 2012, pouco antes de completar 27 anos, exausta dos efeitos colaterais de tantos anos de pílula e das constantes crises de enxaqueca, decidi, por conta própria, parar de tomar.

Por volta dos 28 anos comecei a notar que, além das cólicas horrendas do período menstrual, apareceram novas dores em outros momentos. Sentia cólicas todas as vezes em que ovulava do ovário direito e também alguns incômodos durante as relações sexuais, que variavam conforme a posição.

Também notei uma crescente distensão abdominal que por vezes me causava tanto desconforto quanto as próprias dores. O inchaço era tanto, especialmente durante o período menstrual, que me davam a vez na fila do mercado, achando que eu estava gestante.

Minha amiga me orientou a procurar a doutora Luciana Chamié, radiologista especialista no diagnóstico de endometriose, que me indicou o doutor Alysson Zanatta, cirurgião ginecologista especialista em endometriose.

Conversei com minha ginecologista, que já não era mais a mesma de alguns anos atrás. Desta vez, resolvi correr novamente o risco de ser taxada de qualquer coisa desagradável, e fui bastante detalhista no relato das minhas dores. Para a minha surpresa, ela foi a primeira médica que me ouviu com atenção e acreditou em mim.

Em um primeiro momento, passou a monitorar meu nível sanguíneo de CA 125, que nunca, jamais, em tempo algum, apresentou alterações. Sinceramente, até hoje não vejo muito sentido em utilizar o CA 125 como exame complementar no diagnóstico de endometriose, pois além de não ser específico, pode dar falsa (e perigosa) impressão de que está tudo bem em mulheres que, como no meu caso, nunca apresentaram valores alterados em relação aos parâmetros estabelecidos.

Quando retornei na data combinada para apresentar os resultados dos exames de sangue, trouxe comigo a notícia de uma prima que havia sido diagnosticada com endometriose. A ginecologista me entregou um pedido de transvaginal com preparo intestinal para mapeamento de endometriose e pediu que eu o fizesse o quanto antes.

Marquei com a doutora Luciana, que havia sido indicada pela minha amiga, e viajei até São Paulo com o coração batendo na boca. Entrei completamente trêmula na sala onde seria feito o exame. A doutora me tranquilizou, me perguntou sobre os meus sintomas e me tirou várias dúvidas.

Começou o exame medindo útero e ovários e contando os folículos. Em determinado momento percebi que ela já estava buscando por lesões de endometriose, sempre conversando comigo, em uma possível tentativa de me deixar mais calma.

Mas quando ela começou a tomar medidas novamente, chorei. Já sabia o que ela havia encontrado. As lágrimas rolaram em um misto de desespero e alívio, por finalmente ter a minha resposta, aos 29 anos, 17 anos depois de ter sentido os primeiros sintomas durante a minha menarca.

Eu tinha dois endometriomas no ovário direito e uma série de lesões espalhadas por toda a pelve compatíveis com endometriose profunda.

Ao final do exame, ela me falou sobre as possibilidades de tratamento, me orientou a procurar o doutor Alysson Zanatta e me entregou um cartãozinho do blog A Endometriose e Eu, onde eu poderia encontrar vasto conteúdo sobre a doença.

Assim que voltei para Brasília marquei uma consulta com o doutor Alysson. Que ser humano incrível! De uma gentileza e cordialidade indescritíveis, me recebeu de forma tão acolhedora e humana que me senti como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo.

Expliquei sucintamente o porquê de estar ali. Estava ansiosa por saber a opinião dele e lhe entreguei logo o laudo e as imagens do transvaginal que havia feito em São Paulo. Educadamente, ele virou a papelada de cabeça para baixo e me disse que, antes de olhar o que eu havia trazido, queria me ouvir.

Depois me examinaria e só então olharíamos o resultado do transvaginal, a fim de verificar se suas suspeitas, obtidas por meio da anamnese e do exame de toque, seriam compatíveis com o que mostravam as imagens de ultrassom. Fiquei perplexa e encantada com aquela abordagem.

Passamos mais de uma hora falando. Ele me ouviu atentamente, anotou tudo o que eu dizia, me fez várias perguntas e me tirou várias dúvidas. Me explicou detalhadamente sobre a doença e sua origem, me mostrou vídeos e gráficos, falou sobre a teoria embrionária e a da menstruação retrógrada, apresentou trabalhos científicos com achados em fetos, meninas que ainda não menstruaram e homens, que demonstram o porquê de a teoria da menstruação retrógrada estar ultrapassada.

Falou de diagnóstico tardio, incompreensão, desinformação, técnicas cirúrgicas inadequadas, mutilações desnecessárias. Apontou os tratamentos existentes e, finalmente, apresentou a possibilidade de cura por meio da correta identificação de todas as lesões e sua completa excisão por videolaparoscopia.

Foi muito honesto, e não deixou de falar das taxas de recidiva, ressaltando todos os seus motivos. Em seguida, me explicou como e por que iria me examinar. Durante o toque, notou a presença de uma aderência, exatamente no ponto que me incomodava durante as relações sexuais.

Depois me contou sobre suas conclusões, e só então olhou o laudo do transvaginal e as imagens correspondentes, que diziam exatamente o que ele esperava. Falei que iria para casa digerir todas as informações e pensar nos próximos passos.

Ele disse que era um excelente ponto de partida e se colocou à disposição para tudo o que eu precisasse. Não me pressionou, não tentou forçar qualquer decisão ou interferir nas minhas escolhas.

Simplesmente me acolheu da forma mais humana que alguém poderia fazer, prestou atenção em mim e acreditou no que lhe disse, e me muniu de todas as informações de que eu precisava para escolher por mim mesma.

Me senti tão, tão absurdamente amparada e respeitada! Preparada para finalmente retomar as rédeas sobre o meu corpo e conseguir fazer as minhas próprias escolhas, de forma consciente, livre e esclarecida. Foi um divisor de águas na minha vida.

A fim de me aprofundar sobre o assunto, passei a acompanhar as publicações do blog A Endometriose e Eu, que já havia sido indicado pela doutora Luciana e também foi recomendado pelo doutor Alysson.

No blog encontrei muito conteúdo de qualidade, com textos e entrevistas em linguagem acessível, mas sempre atuais e cientificamente embasadas. Li relatos de outras mulheres, contando suas histórias, nos quais encontrei apoio e inspiração. Parei de me sentir sozinha e, aos poucos, comecei a recuperar minha autoconfiança.

Porém, apesar de ter compreendido que a cura somente seria possível por meio de cirurgia, com a correta identificação de todas as lesões e sua completa excisão, sempre tive pavor irracional de qualquer tipo de procedimento cirúrgico. Não estava preparada para lidar com aquilo naquele momento.

Então acabei optando pelo tratamento hormonal como uma tentativa de aliviar os sintomas, sabendo que ele jamais me traria a cura. Tomei o Allurene (dienogeste) por pouco mais de dois anos.

Parei de menstruar, o que foi um enorme alívio, uma vez que minhas cólicas sempre estiveram muito associadas ao período menstrual. Segui fazendo acompanhamento  com o exame anual que fazia em São Paulo e felizmente respondi bem ao tratamento.

Um dos meus dois endometriomas passou a não ser mais visível no transvaginal com preparo intestinal, e todos os demais focos desinflamaram, reduzindo um pouco em tamanho. Mas hoje falo que o preço foi alto.

Além de não resolver o problema em si e do alto custo do medicamento, tive de lidar novamente com os sintomas causados pelo hormônio. Corria cerca de seis vezes por semana, intercalando treinos de dez e seis quilômetros, além de outras atividades, como bicicleta, musculação e squash.

Mas, após apenas duas semanas de tratamento, de repente não conseguia mais correr nem três quilômetros. Sentia muita falta de ar e fadiga. Tive crises de insônia e dores de cabeça. A acne pipocava no meu rosto em quantidade infinitamente superior à que eu havia tido na adolescência, só que desta vez deixava manchas e marcas. Inchei.

Depois de dois anos, minha ginecologista achou melhor suspender o dienogeste e tentar manter o resultado com pílula convencional, uma vez que ainda não havia estudos sobre os efeitos do uso contínuo do dienogeste a longo prazo.

Sabe quando você tenta arrumar uma coisa e acaba estragando outra? Com a autoestima no fundo do poço, procurei uma dermatologista e resolvi tomar isotretinoína (nota da editora: remédio forte usado para tratar acne), buscando melhorar o problema com a acne.

Mas vieram todos aqueles sintomas associados ao tratamento: pele ressecada, lábios feridos, dermatite atópica, colesterol nas alturas e novas marcas no rosto, devido à piora inicial da acne no início do tratamento. Comecei a me questionar se esse tratamento clínico realmente tinha valido a pena.

Em maio de 2019, descobri que também tinha adenomiose e pouco depois de completar 34 anos, eu e meu companheiro decidimos engravidar. Tentamos de forma natural durante um ano sem sucesso, e veio o diagnóstico de infertilidade.

Com o companheiro, Ricardo, em 2019, ano que começaram as tentativas de engravidar.

A pedido da ginecologista, fiz a histerossalpingografia, a fim de verificar se havia obstrução das tubas uterinas. Senti a dor mais excruciante da minha vida, e por muito, muito pouco, não desmaiei após o exame. Mas as trompas estavam livres.

Com o objetivo de descartar outros problemas, meu parceiro também se submeteu a exames. Contudo, não havia qualquer alteração significativa, que justificasse a infertilidade. Sabíamos quem era a culpada: a endometriose. 

Então, aos 35 anos, seis anos após o diagnóstico e aquela primeira consulta com o doutor Alysson, eu percebi que finalmente havia chegado a hora de enfrentar meus demônios e buscar a cura. Eu já tinha certeza do que precisava fazer.

Mas me apavorei diante da possibilidade de ter de lidar simultaneamente com o meu medo irracional de cirurgia e a infelicidade de ter de operar no meio de uma pandemia de COVID-19. Me perguntei mil vezes por que não havia operado antes. Senti muita culpa.

Minha ginecologista propôs um cronograma para os próximos passos: iniciar com seis meses de coito programado e indução de ovulação com Clomid, depois disso operar e, em último caso, a FIV.

Para a cirurgia, sugeriu que fosse feita uma laparoscopia para “lavar” a pelve, a fim de remover as substâncias inflamatórias que poderiam estar atrapalhando a fecundação e/ou a implantação do embrião no endométrio, pois considerava que a excisão das lesões seria muito invasiva e resultaria em um pós-operatório mais penoso, e que a simples “lavagem” já poderia ter efeito positivo sobre a fertilidade.

Discordei veementemente e me recusei a operar naqueles termos. Falei para ela que, ainda que a “lavagem” pudesse eventualmente funcionar para fins de gravidez, a infertilidade havia sido só o estopim. Disse que não queria apenas gestar. Queria minha qualidade de vida de volta.

Marquei novamente uma consulta com o doutor Alysson. A essa altura, acho que buscava mais um incentivo e um apoio que me empurrassem em direção à decisão que eu já havia tomado do que qualquer outra coisa.

Fui recebida exatamente da mesma forma que da primeira vez, com muita gentileza, acolhimento e respeito. As palavras saíram da minha boca ansiosas, nervosas e atrapalhadas.

Atualizei o doutor Alysson sobre a continuidade da minha história e apresentei meus exames. Falei que já havia escolhido operar, mas estava em dúvida quanto ao melhor momento. Compartilhei as sugestões da minha ginecologista e pedi sua opinião sincera.

Ele me disse que não havia nada nos meus exames que indicasse que meu ciclo fosse irregular ou que eu não estivesse ovulando, de modo que o coito programado e a indução de ovulação provavelmente não me trariam quaisquer benefícios adicionais, uma vez que não atuariam sobre o problema.

Em seguida, me apresentou a curva de fertilidade feminina e disse que aquele seria um bom momento para intervir de alguma forma, não importava qual fosse a minha escolha, principalmente se eu pensasse em ter mais de um filho.

Disse que FIV poderia ser uma opção e encaminhou por e-mail o contato de vários especialistas em reprodução assistida para que eu buscasse outras opiniões, além da dele, a fim de orientar minha decisão.

Perguntei novamente sobre a cirurgia e compartilhei todos os meus medos. Ele me explicou sobre os protocolos de segurança para a COVID-19 e a separação das alas nos hospitais, mas ressaltou que eu só deveria operar quando me sentisse segura.

Esclareceu que a cirurgia seria benéfica para minha qualidade de vida independentemente do momento em que fosse realizada, mas que a taxa de melhora da fertilidade dependeria da minha idade.

Por fim, disse que não direcionaria minha decisão, e ressaltou que, para que eu pudesse tomá-la de forma consciente, deveria ponderar os meus objetivos naquele momento. Informei que, além da gravidez, desejava ter qualidade de vida e me libertar dos tratamentos hormonais de uma vez por todas.

Porém, acrescentei que não pretendia operar naquele exato momento por causa do aumento no número de casos de COVID-19, pois, apesar das alas separadas, receava me submeter a uma cirurgia durante o pico da doença no País. Ele respeitou totalmente a minha decisão e pediu que eu tomasse o tempo que fosse necessário.

Procurei um dos especialistas em reprodução assistida que ele me indicou, e que manifestou a mesma opinião do doutor Alysson sobre o coito programado e a indução de ovulação.

Ele também me explicou que as taxas de sucesso da FIV em uma paciente com endometriose são menores comparadas às de uma mulher saudável, o que apenas deixou muito claro para mim que a cirurgia deveria ser o próximo passo.

Em agosto de 2020 voltei ao consultório do doutor Alysson e comuniquei minha decisão, mas disse que ainda estava insegura em relação à COVID-19.

Ele me alertou de que os trâmites do meu convênio junto ao hospital poderiam ser um pouco demorados, e sugeriu que déssemos entrada no pedido de autorização, para garantir que, em caso de queda no número de casos da doença, eu pudesse operar no momento mais oportuno.

E ainda acrescentou que, se eu ainda me sentisse insegura quando da anuência do plano de saúde, poderíamos adiar a cirurgia. Concordei.

Com o objetivo de tentar controlar as crises de ansiedade que passaram a me assolar, acompanhadas de taquicardia, dor no peito, falta de ar e insônia, comecei a fazer terapia e um curso de meditação.

Três semanas depois de dar a entrada, saiu a autorização. A assistente do doutor Alysson entrou em contato comigo para marcarmos a data. Pedi um mês para me organizar no trabalho e casar a disponibilidade de datas com o período exigido do ciclo menstrual. No mesmo dia, algumas horas mais tarde, finalmente agendamos o dia. Passei o resto do dia aos prantos, antecipando o que estava por vir.

No dia 5 de outubro de 2020, aos 35 anos e 6 meses de idade, 23 anos após os primeiros sintomas de endometriose, entrei sozinha no centro cirúrgico. Havia pelo menos 10 pessoas andando de um lado para o outro e preparando tudo.

Fixei os olhos na mesa de cirurgia e andei até lá, com o coração batendo na boca, travando uma luta voraz contra todos os meus fantasmas e demônios internos, ciente de que se desviasse minha atenção para qualquer equipamento ou instrumento cirúrgico sairia correndo pela mesma porta por onde eu entrei, rumo ao infinito.

No hospital em outubro de 2020 três dias após a cirurgia.

O doutor Alysson me recebeu com aquele seu sorriso largo e gentil de sempre, e me apresentou à anestesista. Pediram que eu me deitasse, me cobriram para me proteger do frio e colocaram o acesso no meu braço.

A anestesista começou a conversar comigo e, alguns minutos depois, apaguei de repente, sem sequer perceber que estava perdendo a consciência. A cirurgia durou cerca de três horas e meia. Fiquei cinco dias internada, pois tive reações um pouco exacerbadas à anestesia, com muita náusea, vômitos e quedas de pressão.

Recebi alta numa sexta e na segunda seguinte apresentei febre. O doutor Alysson me orientou a voltar ao hospital e deixou orientações para que me internassem novamente. Fiz exames e os resultados indicaram infecção. Recebi antibióticos por via intravenosa durante mais quatro ou cinco dias, e depois tive alta para seguir o tratamento em casa, com mais cinco dias de antibiótico por via oral.

O doutor Alysson me visitou todos os dias durante as duas internações para me avaliar, para saber como eu estava e ajustar as medicações. Sempre gentil, sempre atencioso, sempre cuidadoso.

Eu sabia por sua assistente que muitas vezes ele havia passado o dia todo em cirurgias bastante complexas, estava exausto, tinha outras pacientes para ver. Mas em nenhum momento ele deixou transparecer pressa ou cansaço. Prestava atenção em tudo que eu dizia, conversava com a equipe de enfermagem, fazia os ajustes necessários, olhava meus pontos, tentava me animar.

Sorridente durante seu primeiro – e último – ciclo menstrual duas semanas após a cirurgia.

Exatas duas semanas após a cirurgia comecei a ter um sangramento. Sangue vivo, limpo, sem coágulos. E sem cólicas, a não ser pelos incômodos que eu ainda sentia devido à cirurgia.

Inicialmente pensei que o sangramento fosse por causa da histeroscopia, pois o doutor Alysson havia me alertado de que eu ainda poderia sangrar por alguns dias, mas o fluxo se intensificou e seguiu pelos próximos nove dias.

Cheguei à conclusão de que eu havia menstruado. Comemorei com fervor a libertação das dores e o endométrio saudável tão pouco tempo após a cirurgia.

Uma semana após a segunda alta fui ao consultório e o doutor Alysson me mostrou as fotos da operação e me explicou tudo o que foi feito, dando nomes e apontando todos os culpados para as minhas dores.

Ficou muito feliz com o meu relato da minha primeira menstruação pós-cirurgia e disse que estava otimista, pois isso demonstrava que a cirurgia havia sido bem-sucedida. Me liberou para tentar engravidar novamente, tão logo eu me sentisse confortável para retomar a atividade sexual.

Falou que os próximos três ciclos poderiam ser irregulares, mas que depois disso a tendência era normalizar. Por fim, me entregou o laudo cirúrgico e um DVD com todas as imagens e me orientou a retornar novamente em três semanas.

Eu estava com muita endometriose, como constou no laudo: (1) endometriose peritoneal de paredes abdominais laterais direita e esquerda; espaço vesicouterino; ligamentos redondos e mesossalpinges bilateralmente; serosa uterina; ligamentos uterossacros, fossas ováricas e pararretais bilateralmente; regiões retrocervical e retrovaginal; e fundo de saco de Douglas; (2) endometriose profunda de espaço vesicouterino; ligamentos redondos e mesossalpinges bilateralmente; ligamentos uterossacros bilateralmente; e regiões retrocervical e retrovaginal; (3) endometriose ovariana profunda (endometrioma) de ovário direito, cisto achocolatado medindo 1 cm; (4) endometriose de vagina e espaço retovaginal; (5) endometriose de apêndice vermiforme, nódulo em terço distal, medindo cerca de 1 cm.

Acho importante citar todos eles para frisar que jamais devemos duvidar daquilo que o nosso corpo nos diz, independentemente das opiniões e dos julgamentos alheios.

Se eu tivesse poder de escolha, é certo que jamais optaria por ter nascido com endometriose. Aliás, não desejo isso a ninguém. Mas não posso negar que ela me ensinou lições preciosas.

Desenvolvi um autoconhecimento e uma consciência corporal enormes e compreendi que ninguém entende melhor do meu corpo do que eu mesma. Sei de todos os meus limites, consigo identificar instantaneamente quando há algo errado ou diferente e minha percepção se tornou bastante sensível a qualquer alteração.

Não aceito mais médicos (as) que me desrespeitam e que não permitem que eu faça as minhas próprias escolhas. Quero ter autonomia em todas as minhas decisões, que serão tomadas depois de um diagnóstico baseado na anamnese e nos exames necessários, e após receber as informações corretas e os esclarecimentos necessários e ser apresentada a todas opções de tratamento.

Não dou mais qualquer crédito a quem desqualifica as minhas dores e os meus sentimentos, tentando me diminuir enquanto pessoa ou enquanto mulher. Não tolero mais ser taxada de fresca, histérica, hipocondríaca, exagerada ou qualquer sinônimo.

Quase um mês após a cirurgia voltei à ginecologista para o meu check-up anual. Contei sobre a cirurgia e ela me pediu os exames de rotina, inclusive, um transvaginal.

Fiz o exame no dia 3 de novembro, por meio do qual se constatou que eu já havia ovulado. Para a minha surpresa, o corpo lúteo estava no ovário direito, que havia sido manipulado durante a cirurgia.

Meu ciclo sempre foi muito, muito regular, e pelas minhas contas, em condições normais anteriores à cirurgia eu deveria ter ovulado um dia antes do exame, 2 de novembro. Sendo assim, se tudo continuasse a seguir normalmente, eu deveria menstruar em 15 de novembro.

Na data prevista saí para caminhar com as minhas cadelas e senti que algo havia descido. Já estava preparada para menstruar naquele dia e, quando cheguei em casa, fui conferir. Notei a presença de um muco levemente rosado. Mas foi só.

A menstruação não desceu mais tarde, tampouco no dia seguinte, e nem no outro. Desde que o vi, tive esperanças de que o tal muco fosse resultado de nidação (nota da editora: processo de implantação do óvulo no endométrio). Mas depois me obriguei a colocar os pés no chão.

Cheguei à conclusão de que era cedo demais para criar novas expectativas, que havia passado por uma cirurgia grande, com algumas complicações no pós-operatório, e que certamente não poderia ter engravidado naquele período conturbado.

Atribuí aqueles acontecimentos fora do padrão à irregularidade do ciclo em decorrência da cirurgia. Com dois dias de atraso menstrual, tive nova consulta com o doutor Alysson. Contei a ele sobre o ocorrido e ele abriu um enorme sorriso, seguido de um “Opa, será?”.

Falei que não queria criar expectativas porque já havia tido um atraso alguns meses antes, na época da consulta com o especialista em reprodução assistida, possivelmente em virtude de todo o estresse e ansiedade.

Naquela ocasião a menstruação atrasou dois dias, o que nunca havia acontecido antes, e eu passei quatro dias profundamente deprimida e frustrada quando ela finalmente desceu, chorando copiosamente.

O doutor Alysson entendeu e sugeriu que eu fizesse um beta-HCG somente no quinto dia de atraso, caso ele persistisse. Passei a olhar a calcinha umas vinte vezes por dia, em busca de qualquer sinal de sangramento. Comecei a ter cólicas.

Dois dias depois da consulta, levantei várias vezes durante a madrugada para acudir uma das minhas cadelas que vomitava. Era 4h da manhã e não consegui dormir mais.

Entrei escondido no banheiro e fiz um teste de farmácia que eu ainda tinha em casa. Foram os dois minutos mais longos da minha vida. Meu companheiro bateu à porta, perguntando se estava tudo bem. Trêmula, olhei o resultado do teste. Positivo. Olhei de novo. Positivo. Olhei mais uma vez. Positivo.

Com o teste de farmácia, ainda sem acreditar no positivo!

E novamente. Positivo. Saí do banheiro aos prantos, e cuspi a notícia de qualquer jeito, dando fim a todos os planos que tracei durante um ano e meio sobre como contar de forma criativa e romântica.

Ele ficou alguns segundos em estado de choque, sem reação. Depois abriu um sorriso e pediu para que eu me sentasse e me acalmasse. Passei o resto da madrugada em claro, entrando no banheiro de meia em meia hora para ter a certeza de que o resultado do teste não tinha mudado.

Marina exibe orgulhosa sua silhueta gestante.

Esperei o laboratório abrir e corri para fazer o beta-HCG, com o pedido que o doutor Alysson havia me dado. O resultado saiu no início da tarde: 1.164,0 mUI/mL. Eu estava realmente grávida. G-R-Á-V-I-D-A. Exatamente 45 dias após a cirurgia, seguida de uma infecção e 10 dias de antibiótico. Mal podia acreditar.

No dia seguinte, enviei uma mensagem para a assistente do doutor Alysson para dar a notícia e pedir que ela me informasse se eu poderia continuar aplicando as pomadas cicatrizantes sobre os cortes da cirurgia.

O doutor Alysson me ligou assim que finalizou a consulta. Passou cerca de vinte minutos comigo ao telefone, vibrando, comemorando, me dando as primeiras orientações.

Sinto que não tenho palavras à altura para expressar o tamanho da minha gratidão a esse ser humano tão ímpar, que respeitou todas as minhas escolhas e o tempo que precisei para tomá-las, que estudou e se especializou para me oferecer nada menos do que o melhor em suas consultas e também durante a cirurgia.

Além de um profissional competente, é também uma pessoa incrível que transborda gentileza, cordialidade e empatia, que me orientou, esclareceu e informou corretamente, que estava pronto para apoiar a minha decisão quando finalmente a tomei, que me devolveu a qualidade de vida, me libertou das dores e restaurou a minha capacidade de ser mãe.

Hoje, dia 1º de março, escrevo esse texto a exatos dez dias do meu aniversário de 36 anos, data que eu e minha menina completamos 19 semanas de gestação.

Sigo acompanhando o A Endometriose e Eu, as postagens no IG @aendoeeu e sempre feliz por me deparar com informações corretas, atuais e confiáveis, compartilhadas de forma didática e em linguagem acessível.

Sigo sofrendo com os relatos de milhares de mulheres que são vítimas de profissionais incompetentes e irresponsáveis, a quem atribuo os diagnósticos tardios e as cirurgias realizadas sem o conhecimento necessário para identificar corretamente as lesões, empregando técnicas inadequadas e promovendo mutilações desnecessárias.

Marina e sua filha na EndoMarcha 2018 em Brasília.

Sofro, principalmente, por todo o desconhecimento e a desinformação propagados no meio médico e nos grupos de apoio, que impedem que as portadoras de endometriose possam fugir desses mesmos profissionais e fazer escolhas conscientes e bem informadas, acreditando e buscando a cura, hoje e sempre.

Costumo falar que quem convive com a endometriose é heroína. Espero que minha história sirva de inspiração para muitas mulheres que querem gestar, mas também para aquelas que querem resgatar sua qualidade de vida. Beijo com carinho, Marina”.

Fotos: Marina Heckmann/ Arquivo pessoal

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