O significado correto da expressão “doença crônica” na endometriose!

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Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta

Quando comecei a estudar a endometriose com base nos textos e dados fornecidos pelo doutor David Redwine, fiquei perplexa com a quantidade de desinformação propagada diariamente sobre a doença.

Além das muitas desinformações, os rótulos que colocam na doença só prejudicam as endomulheres. Um deles é a confusão que fazem quando falam que a endometriose é uma doença crônica.

A maioria dos médicos fala que a endometriose é uma doença crônica e, por isso, ela não tem cura. Usam a expressão ‘crônica’ como sinônimo de ‘sem cura’.

Mas quem disse que a palavra crônica quer dizer SEM CURA? Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), crônica significa “uma doença persistente por mais de 3 meses”. Dá para acreditar?

Confesso que fiquei chocada quando fui pesquisar sobre o verdadeiro significado de crônica e vi que não é o que propagam por aí. A endometriose só é uma doença crônica porque, como o diagnóstico é extremamente tardio, ela persiste por mais de 3 meses.

Como os sintomas duram muito tempo e, consequentemente, a doença também, a endometriose é uma doença crônica, mas isso não significa que ela seja incurável. Outras doenças, além da endometriose, são crônicas e possuem cura comprovada.

É o caso do câncer, que é, na verdade, um termo usado para se referir a várias doenças caracterizadas pelo crescimento desordenado de células anormais, mas que possui altas taxas de cura, principalmente, quando há o diagnóstico precoce.

A leucemia, por exemplo, possui mais de 80% de chances de cura, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. O tratamento pode ser medicamentoso, por quimioterapia, radioterapia e/ou cirúrgico.

Outra doença que pode servir de exemplo é a hepatite C, pois 70% das pessoas desenvolvem a sua forma crônica. Os outros 30% ficarão curados sem nenhum tratamento até 6 (seis) meses após a infecção.

A boa notícia para quem desenvolver a forma crônica é que a cura por medicamentos antivirais ultrapassa 95% dos casos tratados.

A hanseníanse (conhecida como lepra) possui um período de incubação médio de 3 (três) anos e o tratamento medicamentoso capaz de curar a doença leva de 6 (seis) a 12 (doze) meses.

Da mesma forma, a endometriose tem cura, por meio da excisão/ressecção cirúrgica de todos os focos da doença + conhecimento das diversas manifestações da doença, como temos difundido a partir de artigos e dados científicos.

Porém, também falamos que, infelizmente, a cura não será para todas, principalmente, para quem tem múltiplas cirurgias. Por isso é importante nos casos que necessitam de cirurgia, a primeira já deve ser a completa com remoção total dos focos.

Por isso resolvi escrever este texto, pois precisamos acabar com a desinformação. Mas também preciso dizer que há possibilidade da endometriose não ser crônica para algumas mulheres, pois para aquela que descobriu a doença e tratou até 3 meses (pode ser algo raro, mas pode sim existir) após o início dos sintomas, a endometriose não é crônica.

Conseguiu entender a diferença?

Porém, na prática, há alguns pontos que fazem as pessoas pensarem que a endometriose é uma doença crônica e sem cura, e, isto se deve a principalmente 3 fatores:

1 – Teoria da menstruação retrógrada: como a mulher irá menstruar, certamente a doença irá “voltar”. Apesar de já ter sido provado histologicamente pela ciência que as células do endométrio e dos focos de endometriose são diferentes, a maioria dos ‘especialistas’ ainda acredita na fadada teoria de Sampson;

2 – Diagnóstico incompleto das lesões, seja por exames de imagem ou até mesmo durante as cirurgias. Se o médico cauteriza as lesões, ele deixou lesão no corpo da mulher, então, neste caso, a doença não voltou, mas continuou lá. É importante saber também que não basta a utilização da técnica correta, o cirurgião precisa reconhecer todas as manifestações da doença, e não procurar apenas o foco em aspecto de ‘pólvora’.

3 – Cirurgias incompletas dando a impressão de doença recorrente, quando na verdade, como falei no tópico anterior, na cauterização, ela é persistente e não reincidente. Quando é feita a excisão/ ressecção dos focos a doença até pode voltar, mas, geralmente, a reincidência é em outro local, e não no mesmo onde foi retirado os focos e todos os focos, como geralmente acontece.

Ou seja, a endometriose é uma doença crônica que tem cura sim se feita a cirurgia completa com cirurgiões que conhecem e reconhecem todas as manifestações da doença, como o doutor David Redwine aborda nos textos: “A aparência visual da endometriose e seu impacto” e “A evolução da cor da endometriose relacionada à idade”. 

Até porque além de mim conheço muitas mulheres no Brasil e no exterior que estão curadas. É só acessar a coluna “História das Leitoras” que você vai ler muitos depoimentos de cura pós cirurgia completa com cirurgiões experientes em reconhecer todas as manifestações da doença.

É chocante a desinformação sobre a doença e mais chocante ainda é que após consulta ninguém vai no google pesquisar ‘o que significa a palavra crônica’, por exemplo. As pessoas são facilmente enganadas com desinformação e ainda propagam isso como verdade absoluta.

O esforço que eu e meus colaboradores fazemos no Brasil para passar informações coerentes conforme comprovação científica está sendo feito diariamente por cirurgiões excisistas no mundo todo.

Uma informação que estes cirurgiões estão colocando em seus perfis nas redes sociais é que eles são endoexcision surgeon, ou seja, eles mesmos já se identificam colocam que fazem a cirurgia completa com remoção total dos focos.

Uma leitora passou em consulta com o doutor Cook, na Califórnia – com mais de 30 anos como cirurgião excisista -, e como seu caso era cirúrgico, logo que ele mencionou a cirurgia, ele disse que sua porcentagem de reincidência é de apenas 15 a 25%. 

Ou seja, de 85 a 75% de suas pacientes ficam curadas após única cirurgia de remoção total dos focos + reconhecimento de todas as manifestações das lesões. O doutor Redwine em 35 anos como cirurgião excisista tem comprovado que de suas mais de 3 mil cirurgias, apenas 18% tiveram reincidência, e 82% fizeram uma única cirurgia com ele.

Além dos médicos, as ativistas americanas também estão reivindicando tratamento correto e completo para as endomulheres. Em abril de 2018, elas fizeram protesto na sede do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).

Além dos médicos, vejo muita desinformação em páginas e grupos de endometriose. A desinformação é a pior inimiga de um ser humano, especialmente, quando falamos de doença. As mulheres precisam se unir e se informar mais.

A endometriose só é uma doença crônica porque o diagnóstico leva, em média de 7 a 12 anos e porque muitos médicos, pacientes e órgãos públicos insistem em dizer que ela não tem cura.

Compartilhe esse texto e ajude-nos numa conscientização da endometriose! Vamos lutar para que a doença não seja “crônica” para as próximas gerações. Beijo carinho!

Nota do editor:

De fato, o conceito vigente sobre a endometriose é que ela seja causada pela menstruação retrógrada, crônica, incurável e recorrente. A teoria da menstruação retrógrada “justifica” a suposta cronicidade da doença, as falhas medicamentosas e cirúrgicas. Nem no câncer o tratamento é feito com tamanha falta de perspectiva.

Neste brilhante texto, a Caroline coloca muito bem os motivos pelos quais este conceito ainda é vigente. Apesar da evolução da medicina e de modernas técnicas de pesquisa, jamais conseguiu-se demonstrar que o sangue menstrual tenha capacidade de “invadir” um tecido e tornar-se a lesão que conhecemos como endometriose profunda.

Por outro lado, há vários relatos de pacientes e especialistas que demonstram a cura da endometriose com a sua completa excisão, considerada a individualização dos casos. Assim, talvez a endometriose só seja crônica porque nós mesmos a tornamos crônica. Para refletirmos! Abraço, Alysson Zanatta

2 Comentários

  1. Francine Pereira Figueiredo Em

    Olá bom dia. Achei interessante a matéria!
    Mas na verdade, eu queria uma luz. Já fiz duas cirurgias, uma videolaparoscopia e a outra também começou por vídeo e terminou aberta. Sofro constantemente com essa doença maldita!!! Estou sem tratamento, na verdade estou sem norte. Não consigo nenhum médico especialista pelo SUS e os particulares (dentro das minhas condições financeiras) dizem que meu caso é complicado e simplesmente me dispensam. Tenho todos os exames, me tratei com o doutor Ricardo Lasmar, no hospital Antônio Pedro em Niterói RJ. Um excelente médico, mas a equipe dele saiu do hospital e só ficou a ginecologia normal que não trata do assunto! Tenho medo do que pode se tornar, sinto dores horrível a qual vc já sabe como é. Estou sangrando há uns 8 dias. Saí pedaços de endométrio e um fluxo intenso e fortes cólicas. Fui a uma ginecologista que se dizia entender do assunto, mas me deixou na mão. Parei numa unidade de emergência, mas eles não se interessam na causa. Só me deram remédio pra dor e transamim. Que nada adiantou!!! Peço SOCORRO PELO AMOR DE DEUS!!!!!!! Se alguém puder me dar um norte do que devo fazer, de onde devo procurar um especialista. Já fui em vários hospitais aqui no Rio, e dizem que tenho que entrar pelo sisreg, mas quando vou fazer o cadastro, eles dizem que não estão chamando e não adianta fazer. Me ajudem por favor!!!!!!!!! Já não sei mais o que fazer. Estou sem saída… Sem rumo… Desesperada…

    • Caroline Salazar Em

      Francine, querida, no Rio indico o doutor Eduardo Valle. O contato dele está na lateral direita do blog. Boa sorte! Beijo carinhoso!

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