Constipação, diarreia… Como são as fezes de quem tem endometriose?

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Por Caroline Salazar
Edição: doutor Alysson Zanatta 

Quando o blog ainda era meu diário no blogspot, eu relatava muito do que sofria com a endometriose e escrevia sobre temas que apenas quem sofre com a doença sabe o que é.

Um desses temas foi sobre as fezes das portadoras de endometriose publicado em 2011. Na verdade, o texto vai muito além das fezes, mas retratei a dificuldade que as endomulheres sentem ao evacuar.

Em toda matéria sobre endometriose que lemos na grande mídia diz que as mulheres acometidas pela doença têm dificuldade para evacuar.

Mas nunca escutei alguém perguntar para alguma portadora de endometriose que dificuldade é essa?

Eu, que atuei como repórter por cerca de 15 anos, sempre fui muito curiosa e sei que esse fato me fez ter dados exclusivos em muitos momentos mesmo quando a entrevista não era exclusiva.

Se eu não tivesse passado por essas dificuldades, mas tivesse escutado isso, seria um ponto que me chamaria atenção. E é justamente essa dificuldade que, como jornalista e mulher que sofreu 21 anos com os sintomas da doença, desvendei e vou abordar neste texto.

O texto publicado em março de 2011 intitulado “Como são as fezes de quem tem endometriose” é o 2º mais lido com mais de 50 mil acessos, atrás apenas do “Seu sangue menstrual é sadio?”

Por isso resolvi reescrevê-lo e, agora, também com a versão de quem não tem mais dificuldade para ir ao banheiro.

Antes da minha 1ª cirurgia, em 2010, era aterrorizante pensar em evacuar. Eu passava muito mal. Sentia muito mal-estar, suava frio, sentia enjoos, além da dor.

As minhas fezes não tinham sangue, mas quando o tinham sabia que eram das hemorroidas que eram frequentes na época, pois fazia muita força para evacuar e, mesmo assim, nada.

Sim, muitas vezes quase não saía cocô. A sensação de ficar entalada com as próprias fezes era horrível. Fora o mal-estar que aumentava. Quando saía eram bem finas ou em bolinhas e muito fétidas.

Eu sei que todo cocô é fedido, óbvio que nenhum é cheiroso. Mas, lembro-me bem, que nesta época era mais fedido que o normal. Tinha até receio de precisar evacuar fora de casa. Minha tática era ter um fósforo sempre à mão.

Quanto ao formato sempre achei estranho, principalmente, porque eram muito finas, tipo fita. E eis que na minha primeira sessão de fisioterapia, adivinha o questionário que tive de preencher? Exatamente sobre as fezes.

Foi a partir daí que surgiu a ideia de escrever o texto de 2011. Neste questionário tinha os diversos formatos, entre eles, as tais bolinhas e fezes finas.

Sofri durante anos para ir ao banheiro e achava normal. Por exemplo: sempre tive diarreia nos meus períodos menstruais, desde minha menarca aos 13 anos.

Depois de algum tempo que fui ter constipação e passei a ficar dias, semanas sem evacuar. Na época não sabia o quão mal isso fazia. Se nós comemos todos os dias precisamos evacuar regularmente.

Eu nunca tive uma má-alimentação, nunca fui de comer porcarias, mas quando tinha os focos e sintomas evitava ao máximo embutidos, processados e frituras, pois meu abdômen ficava ainda mais inchado (leia o texto “EndoBarriga – por que ocorre o inchaço abdominal?”) e eu já não conseguia evacuar.

Passava uns 20 dias sem ir ao banheiro. Só de tocar na minha barriga, doía bastante. Eu não sabia que já estava com minha pelve congelada e com meu intestino já sem funcionar direito.

Quando operei em julho de 2010 soube que estava com alguns órgãos sem funções e meus intestinos eram alguns deles. O doutor Hélio me disse – a mim e à minha mãe – que não sabe como cheguei andando e respirando ao hospital.

Realmente, eu tinha sensações horríveis como se algo fosse estourar dentro de mim a qualquer momento. A sensação era como se meu abdômen fosse uma bomba-relógio.

Após essa cirurgia, na qual parte das minhas alças foram descoladas e todos os outros órgãos desgrudados, ir ao banheiro já não era tanto sofrimento, mas ainda tinha certa dificuldade.

E eu já não tinha mais perda de fezes. Antes da cirurgia, a essa altura já era comum soltar gases e sair fezes. Devia ser por conta das aderências. Sempre que saía de casa levava uma calcinha extra.

Após minha 2ª e última cirurgia em junho 2012, quando tive todos os focos e aderências removidos, enfim, passei a ter uma nova vida, inclusive, para evacuar.

Era muito ruim a sensação de ter uma evacuação incompleta. Ir evacuar e sair como se ainda estivesse “cheia de fezes” dentro de mim, além de causar muito mal-estar e enjoo, me sentia muito mal.

Foi um alívio começar a ter evacuação completa. Uma sensação incrível! Parece bobeira, mas só vai entender essa felicidade quem passa ou já passou por isso.

Desde 2012 tenho uma nova vida em todos os sentidos. Detalhe que não fui diagnosticada com endometriose intestinal, mas por conta da minha pelve, que estava congelada, dificultava e impedia os movimentos naturais dos órgãos.

Tenho uma boa alimentação, sempre dei preferência aos alimentos de verdade, mas como me considero curada, desde então, não tenho restrição a nada, inclusive, doces e sorvetes quando tenho vontade.

Tudo é uma questão de equilíbrio. Claro que se eu comer um pote de 1 litro de sorvete a consequência será uma bela diarreia. Por isso conhecer o próprio corpo, escutá-lo e ter bom senso são essenciais para saber o que você pode ingerir ou não.

É importante destacar que ter uma alimentação saudável e balanceada não cura e nem estaciona a doença, pois os alimentos atuam nos sintomas, não nos focos – a causa do problema.

Os alimentos processados, industrializados, embutidos, bem como frituras e até mesmo derivados lácteos e glúten aumentam o processo inflamatório causando inchaço abdominal e evacuações dolorosas para àquelas que têm focos.

É importante ter uma alimentação saudável e isso pode aliviar e muito seus sintomas. Você pode e deve adotar outros hábitos saudáveis também: praticar atividades físicas, dormir bem, divertir-se, etc. Mas, infelizmente, mudar sua alimentação e estilo de vida, não curará a endometriose.

Se você vive bem, sem sintomas apenas alterando seus hábitos ou tratamentos não invasivos, isso é ótimo, mas cada caso é um caso. Não ache que os organismos de todas as endomulheres irão reagir da mesma forma.

Até o momento, a única forma comprovada de cura da endometriose é a cirurgia de excisão com reconhecimento de todos os tipos de focos e, mesmo assim, infelizmente, nem todas ficarão curadas, principalmente as que já passaram por múltiplas cirurgias.

O que quero deixar aqui é mais uma vez uma mensagem de esperança. Seja qual for seu caso, é possível viver bem sendo portadora de endometriose ou, se for indicada a cirurgia, a cura.

Por isso, é tão importante quebrar tabus, falar de fezes, de sangue menstrual, de dispaurenia (dor na relação sexual – leia o texto: “Dor no sexo, outro sintoma da endometriose”) para que um dia, quiçá, a cura seja sim para todas!

Saiba mais sobre a constipação intestinal crônica, o formato das fezes, a posição correta para evacuar e também sobre os tratamentos fisioterápicos para a constipação intestinal.

Ajude-nos a espalhar a nova conscientização da endometriose compartilhando esse e outros textos do A Endometriose e Eu. Beijo carinhoso.

Nota do editor: como relatado pela Caroline, sintomas intestinais são muito comuns em mulheres com endometriose, e não são necessariamente causados por endometriose “no” intestino.

De fato, não há uma relação direta entre sintomas intestinais e a presença de endometriose intestinal, sendo que mulheres sem endometriose intestinal podem apresentar sintomas importantes (como a Caroline), e vice versa.

Isto acontece porque as lesões de endometriose costumam ter grande proximidade com os plexos hipogástricos inferiores, locais que concentram quase toda a inervação dos órgãos pélvicos (intestino, bexiga, útero).

 Assim, pode haver dores que nosso cérebro interpreta como vindo destes órgãos, sem que eles necessariamente estejam comprometidos.

A avaliação clínica e de imagem é fundamental para diagnosticar as várias formas de endometriose e correlacioná-las com os sintomas apresentados.

Fonte imagem: Deposit Photos/ Caroline Salazar

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